Recaída autoritária - artigo
“Mais uma vez revela-se o caráter autoritário do
governo petista no episódio da quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro
Francenildo Costa, e ficamos todos indignados e impotentes diante de tamanha
afronta aos direitos individuais, praticado no mínimo com a conivência da
Polícia Federal, onde o caseiro estava na hora em que o extrato foi tirado, e da
Caixa Econômica Federal, única fonte para a obtenção da senha, já que o próprio
titular da conta não a forneceu.
Seria a inaceitável instalação de um estado
policial, que já havia sido vislumbrado pela Ordem dos Advogados do Brasil
quando entrou em uma batalha contra o Ministério da Justiça contra a atuação da
Polícia Federal nos escritórios de advocacia em vários pontos do país, a
pretexto do combate à corrupção.
Escutas telefônicas, conseguidas através de
subterfúgios, eram a ponta do iceberg de um processo investigativo tão popular
quanto duvidoso. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, precisa fazer mais
do que simplesmente lamentar o que aconteceu. Precisa mostrar claramente que o
governo não compactua com esse tipo de procedimento, pois até o momento a
sensação é de que um fato desses só ocorre quando o agente do estado, se não
recebeu orientações nesse sentido, tem certeza da impunidade.
A informação de que o extrato do caseiro
Francenildo já circulava entre políticos e autoridades petistas antes de ser
publicado pela revista “Época” reforça a idéia de que se tratava de uma
estratégia oficial para desmoralizar o testemunho contra o ministro da Fazenda
Antonio Palocci. Testemunho, por sinal, que só tem relevância por indicar que o
ministro freqüentava a casa onde lobistas amigos de longa data faziam negócios,
o que sugere que o faziam com o seu beneplácito, o que é preciso investigar. E
não por outras utilizações que eventualmente tivesse o “aparelho”.
O projeto de reeleição do presidente Lula, que no
início do governo parecia favas contadas, sofreu considerável contratempo com o
resultado da eleição municipal de 2004, de cujas urnas o PSDB saiu com uma
vitória política expressiva, em que pese o PT ter ampliado sua penetração no
interior do país. Na ocasião, o presidente do PT, José Genoino, identificou como
razão principal da derrota petista o que classificou de “uma bem sucedida
campanha da oposição” para instalar no país um clima anti-petista, cuja base
seria um autoritarismo do partido, que ele negava.
O autoritarismo do PT não se expressava apenas nas
alianças políticas literalmente compradas, como depois ficou provado com as
denúncias sobre o mensalão, mas em tentativas de controlar a imprensa e as
produções culturais, com a criação de conselhos estatais, e em declarações de
ministros que deixariam à mostra uma face política radical que estaria apenas
aguardando um bom momento para se manifestar mais claramente.
Nunca é demais lembrar que ex-presidente do PT
Tarso Genro, por exemplo, cogitado para coordenar a campanha de reeleição de
Lula, defende no seu livro “A Esquerda em progresso”, a democracia direta à la
Hugo Chávez, com a “exacerbação da consulta, do referendo, do plebiscito e de
outras formas de participação”, e o controle dos meios de comunicação através de
“conselhos de Estado”.
A cada explicitação desse caráter autoritário,
desfaz-se a imagem do “Lulinha Paz e Amor”, criação imortal de Duda Mendonça, e
aumenta o temor do que seria o “verdadeiro PT” num eventual segundo governo
Lula. A classe média, que abandonara Lula num primeiro momento, voltou a flertar
com ele a partir dos bons resultados da economia.
Mas, se é verdade que a maior parte das decisões de
voto é motivada por valores, é previsível que, diante de novas manifestações de
autoritarismo do governo Lula, e com a opção do tucano Geraldo Alckmin agora
colocada à sua disposição, a classe média reflua de uma posição quase
oportunista devido ao dólar barato, que lhe permite usufruir viagens
internacionais e importados (a popular Bolsa-Miami), e volte a emitir sinais de
que teme esse DNA petista.
Assim como, para chegar ao poder, Lula teve que
ampliar suas alianças a ponto de buscar apoios nas oligarquias nordestinas do
PFL e do PMDB, e agora evolui com desembaraço para o populismo mais escrachado,
terá que deixar de lado antigas alianças com movimentos sociais como o MST, ou
com a esquerda socialista, para governar com setores mais amplos da sociedade.
Se não o fizer, correrá o risco de ver-se rejeitado
pelo mesmo eleitorado que o fez pela primeira vez superar os 30% de votos em que
se situava historicamente. Antigos temores da classe média com relação ao
governo do PT voltam à tona com as invasões de terras que o MST retomou. A falta
de ação do governo para coibir esse “verão vermelho” é sinal de que a
cumplicidade com os sem-terra não dá espaço para o uso da lei.
A rejeição da classe média ao governo se deve
também à ineficácia da administração, e já se manifesta novamente nas pesquisas
de opinião, que voltam a registrar o declínio da aprovação ao governo e à
maneira de Lula governar. Há também a repulsa à utilização da máquina
administrativa, à partidarização das repartições públicas, que ficou patente
agora nesse episódio do caseiro.
Todos esses fatos levaram a um declínio da
popularidade de Lula, do qual ele se recuperou no que já está sendo chamado de
“descanso do verão”. A retomada da ofensiva oposicionista, e o surgimento de
novos fatos envolvendo o governo, abrem perspectivas novas na corrida eleitoral.
Mesmo assim, até o momento o desfecho da campanha
eleitoral parece depender mais de Lula que de Alckmin. O candidato do PSDB não
tem qualidades para empolgar, mas pode ser uma alternativa se Lula voltar a
perder a confiança do eleitorado”.
O artigo "Recaída autoritária" é de autoria do colunista político Merval Pereira e foi publicado na edição de 21/03 de O Globo (RJ)