Menos reclamações e mais soluções
por Danilo Pretti Di Giorgi
Tenho denunciado com freqüência - de maneira por vezes agressiva - a insensatez da nossa espécie frente a sinais mais que claros de esgotamento do modelo de produção e consumo vigente. Questiono repetidamente as razões que levam a humanidade a fingir-se de cega e progredir a passos largos rumo ao precipício, mesmo diante de estudos científicos que, a cada dia, se tornam mais uníssonos com relação às suas conseqüências funestas.
Como conseqüência, eventualmente recebo cartas de leitores que solicitam textos mais propositivos, que tragam idéias de possíveis caminhos a serem trilhados para a reversão deste quadro desolador.
Hesitei um bocado sobre como escrever este artigo, pois, analisando minhas próprias atitudes cotidianas, me dei conta de que algumas delas deveriam ser citadas como exemplos do que deveria ser mudado. Isso me fez refletir sobre o sentido da campanha ambientalista. Quem aponta problemas fica automaticamente obrigado a apresentar soluções? E quem aponta as soluções precisa ser exemplo de sua aplicação? Preparei uma pequena lista, com alguns poucos exemplos do que poderia ser mudado em nosso cotidiano.
No universo dos alimentos: reduzir o consumo de carne; favorecer produtos da estação e de sua região; cortar industrializados; evitar embalagens, comprando comida a granel. Em suma, se você adora cerejas, mas vive numa zona tropical, esqueça que elas existem, pois, para que seu desejo seja satisfeito, elas terão que ser transportadas por longas distâncias - e pode-se viver sem elas. Coma mangas, cajus, pitangas e acerolas. Este tipo de regra valeria para qualquer item de consumo.
Quanto ao transporte: reduzir drasticamente a uso de veículos automotores, que deveriam ser usados apenas para o estritamente necessário (transporte de bebês, idosos ou doentes, de equipamentos hospitalares etc.). Se não é possível ir a pé, de bicicleta ou de ônibus, não vá.
Na construção civil: obrigatoriedade do uso de placas solares, além de muita iluminação natural, ventilação nas áreas quentes e estruturas que evitem a perda de calor nas regiões frias; todas as casas deveriam ter sistemas de captação de águas da chuva; as decisões sobre os todos os projetos deveriam levar em conta primordialmente o nível de impacto para sua edificação.
No mundo do deus-consumo, seria necessário cortar os traços mais patológicos de adoração: acabar com a ligação direta do comércio com o Dia dos Pais, das Mães e das Crianças. Retirar do Natal o espírito consumista, que acaba por deturpar seu significado primeiro. Por que comprar um celular novo se o velho ainda funciona e o antigo vai para o lixo, com suas baterias venenosas? A indústria precisaria dar uma marcha-ré, retornando à produção de itens mais duráveis, dando preferência para os reparos (que empregariam muito mais gente, mais qualificada), evitando ao máximo o descarte.
Na grande mídia, tudo me diz para consumir: troque a sua televisão (e jogue-a no lixo) pela imagem perfeita de uma tela de plasma, coma o produto X, que é mais gostoso, ou o Y, que é mais magro, e tome, em seguida o remédio Z para indigestão causada por comer ambos em excesso. O ideal por trás de todo o raciocínio é o da superação. Você não deve contentar-se com seu "padrão de consumo". O homem do século 21 quer sempre mais, só é feliz o executivo de sucesso, o empresário bem-sucedido, o dono do carro mais caro, do helicóptero e do iate.
Quando o discurso ambiental começou a ganhar força, nos anos 70, as garrafas de refrigerantes eram feitas de vidro. As pessoas levavam até o mercado os vasilhames vazios – os "cascos" – dentro de sacolas de palha para serem trocados por outros cheios. Comprava-se apenas o líquido.
Hoje, apesar de toda a suposta conscientização ambiental, as garrafas de vidro - que ficavam esbranquiçadas e gastas por tanto uso - praticamente desapareceram. Foram substituídas pelas de plástico, que acabam em grande parte nos lixões ou nos rios.
A produção de lixo per capita em todo mundo se multiplicou assustadoramente desde então. Apesar do trabalho das ONGs ambientalistas que aparecem com freqüência – e que adoram aparecer – nos meios de comunicação, os rios estão mais poluídos e os desmatamentos batem recordes a cada ano. O cenário vem se degradando a cada dia.
Algumas das possíveis propostas – você, leitor, certamente poderia sugerir outras - estão aí. Mas quem estaria disposto a começar esse regime de privações? Para surtirem efeito, as mudanças teriam de ser assimiladas por uma parcela considerável da humanidade. O que levaria um indivíduo a sacrificar grande parte dos prazeres de sua existência sozinho? E como a sociedade suportaria o imenso impacto econômico decorrente da eventual aplicação deste tipo de mudanças?
Um artigo com este teor seria ridicularizado e classificado como utópico, infantil, irreal. Por isso que o evito há meses. As idéias sobre o que deve ser feito, sobre as atitudes a serem tomadas para salvar a vida humana, não precisariam ser listadas em artigos redigidos tendo como público-alvo leitores com cultura bem acima da média brasileira. Todos com acesso à informação temos pelo menos alguma noção dos caminhos a serem trilhados para tanto. O que nos falta é coragem para enfrentar a realidade. E a realidade é que não podemos seguir nem muito menos aprofundar um sistema que invariavelmente nos levará ao colapso. Como fazer isso é a grande questão da humanidade neste momento.
Mesmo sendo parte dessa imensa confusão e ainda que não seja capaz de traçar com segurança os caminhos para fugir dela, sinto-me na obrigação de levantar a questão quantas vezes me for dada a oportunidade e o espaço para expor esses problemas. Fomos nós, homens e mulheres, que criamos este nó e só nós seremos capazes de desatá-lo. Nunca disse que isso seria fácil.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista. E-mail: digiorgi@gmail.com