Fenômeno eleitoral? Heloísa Helena, a “Cangaceira do Bem”, garante 2º turno
Saiu do próprio ventre petista aquela que, provavelmente, forçará o presidente Lula a enfrentar o desafio do segundo turno. Ex-filiada ao PT, do qual foi expulsa por não acatar a orientação do Palácio do Planalto em votações no Congresso Nacional, a senadora Heloísa Helena é a candidato à presidência do PSOL, outro partido saído das entranhas petistas na primeira leva de dissidência após a chegada ao poder.
Por Marcelo Villas-Bôas, de Porto Alegre
Saiu do próprio ventre petista aquela que, provavelmente, forçará o presidente Lula a enfrentar o desafio do segundo turno. Ex-filiada ao PT, do qual foi expulsa por não acatar a orientação do Palácio do Planalto em votações no Congresso Nacional, a senadora Heloísa Helena é a candidato à presidência do PSOL, outro partido saído das entranhas petistas na primeira leva de dissidência após a chegada ao poder.
As últimas pesquisas eleitorais mostram um crescimento consistente da senadora de discurso esquerdista, com acento udenista, e forte empatia popular. Conforme o último levantamento do Datafolha, divulgado terça-feira, dia 18/7 no Jornal Nacional e na Folha de S. Paulo, Lula e Geraldo Alckmin estão praticamente na mesma posição, mas Heloisa Helena cresceu quatro pontos percentuais em menos de três semanas. A senadora tinha 6% do eleitorado na última pesquisa, em 30 de junho. Agora, aparece com 10% das intenções de voto. Foi a única que apresentou crescimento significativo. Lula tinha 46% no levantamento de junho, caiu dentro da margem de erro, e agora está com 44%. Alckmin havia conquistado 29% das intenções na última pesquisa, mas caiu para 28% na atual simulação.
O candidato do PDT, Cristovam Buarque, e do PSDC, José Maria Eymael, mantiveram 1%. O presidenciável do PCO, o comunista Rui Pimenta, com menos de um ponto percentual, agora aparece com 1%. Brancos e nulos se mantiveram na faixa de 7%. Os indecisos eram 9% em junho e agora são 8%. O candidato do PSL, Luciano Bivar, teve menos de 1% das intenções de voto.
Considerando apenas os votos válidos, Lula teria 52% do eleitorado. Porém, como a margem de erro da pesquisa é de dois pontos para mais ou para menos, o Datafolha concluiu que não é possível precisar se o petista venceria a disputa já no primeiro turno. Levando-se em conta a margem de erro para menos, o presidente teria 50% dos votos. Mas, para ser eleito em primeiro turno, ele precisaria da metade dos votos válidos mais um.
Chuchu x Pimentinha
Competindo com fortes estruturas partidárias, voando em aviões de carreira contra os jatinhos de Lula e Alckmin, Heloísa Helena tem fôlego de sobra e respostas na ponta da língua. Na última sexta-feira, por exemplo, saindo de Campina Grande e João Pessoa, na Paraíba, para pegar vôos para Natal e depois São Paulo, ela encontrou tempo para mandar o recado ao Presidente Lula.
“Já ouvi de um eleitor que esta eleição virou uma feira-livre. Ele me disse: cansei de chuchu, cansei de abobrinhas, agora vou de pimentinha", recordou, ao contar a brincadeira feita com apelidos dados a ela e aos outros dois principais candidatos, Geraldo Alckmin (PSDB) e Lula (PT). Ao lembrar um de seus outros apelidos, "Loló", a senadora afirmou que, caso seja eleita, não irá se submeter politicamente a figuras como os presidentes Hugo Chávez (Venezuela) e Evo Morales (Bolívia), ainda que sejam de esquerda. "No governo da mulher Heloísa Helena, nem manda Bush nem Hugo Chávez, manda Loló!".
Por onde quer que passe, a senadora e sua pequena comitiva reúnem muita gente. Na semana que passou, em Juazeiro do Norte, no Ceará, ela chegou a perder a lente dos óculos tanto foi o empurra-empurra. Começou a campanha às 6h, na missa de homenagem aos 72 anos de morte do padre Cícero, vista por 30 mil pessoas. Na parte do altar, montado em frente à igreja do Socorro, onde o religioso foi enterrado, destinada às autoridades, estava também o governador do Ceará, Lúcio Alcântara (PSDB). Para não ter de cumprimentá-lo, Heloísa desceu do altar assim que a missa acabou. Decidiu ficar entre a multidão. O assédio era tanto que ela mal conseguia andar nas ruas da cidade. Ganhou uma estátua do padre Cícero, feita de borracha, e outros apelidos: "Cangaceira do Bem" e "Maria Bonita do bem". De tantos beijos e abraços, a lente dos óculos da senadora, sem armação e já um pouco rachada, partiu ao meio, e ela teve de arranjar um jeito de colar para continuar a caminhada.
Na manhã de sábado, quando se deslocava de João Pessoa a Natal de carro, em duas horas de viagem, chegou sentindo náuseas e dores pelo corpo. Mesmo com a indisposição, a candidata não quis cancelar os compromissos de campanha. A socialista recebeu soro e foi liberada em seguida, quando saiu em carreata.
Sobre propostas de governo, a candidata diz que pretende reduzir a taxa básica de juros pela metade, para também diminuir a dívida pública, e aumentar a meta de crescimento da economia para 6,5%. Tida como um símbolo da esquerda mais radical no país, com fortes raízes na Igreja católica reformista, Heloisa Helena não definiu a reestatização de empresas privatizadas em governos passados, uma das bandeiras de luta de seus apoiadores. "É uma especulação absolutamente indevida dizer o que fazer sem uma auditoria." Ela também não falou em moratória, em relação à dívida pública, mas novamente em "auditoria".
"Se você quer uma palavra forte para botar lá na manchetezinha, diga que eu vou enfrentar os moleques do capital financeiro, sabotadores do desenvolvimento econômico às custas da dor e da miséria da grande maioria da população, e vou fazer não com um golpe presidencial, porque, se alguém disser isso, é tão ignorante, incapaz, desqualificado tecnicamente, que não conhece a legislação em vigor no país, porque quem define a política econômica é o Conselho Monetário Nacional.” Ao comentar seu crescimento nas pesquisas eleitorais, Heloísa disse: "Eu estou no encalço. Primeiro do Alckmin, depois de sua majestade barbuda [Lula]".
Segundo turno
Segundo cruzamentos de dados feitos pelo Datafolha (entre os dias 17 e 18 de julho), a senadora Heloísa Helena (PSOL) está conquistando parte do eleitorado das regiões Sul, Sudeste e Nordeste do candidato à Presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin. O crescimento mais significativo foi no Sul, onde a senadora aumentou de 3% para 15%. No segmento da população sulista que tem nível superior, ganhou oito pontos percentuais (de 11% para 19%), alcançando empate técnico com o presidente Lula (que diminuiu de 20% para 17%). Enquanto o tucano, nesse mesmo grupo de eleitores, perdeu nove pontos (de 54% para 45%). De fato, alguns dias antes, durante sua visita ao Rio Grande do Sul, Heloísa Helena foi comparada a uma usina de energia por Roberto Robaima, candidato a governador pelo PSOL.
No Sudeste, a população de nível superior também tem demonstrado maior preferência pela representante do PSOL. Heloísa cresceu seis pontos e o tucano reduziu cinco. Lula oscilou de 29% para 27%. Já no Nordeste, Alckmin caiu oito pontos entre eleitores de escolaridade superior (de 27% para 19%) e Heloísa Helena subiu seis pontos (de 8% para 14%). O petista oscilou de 56% para 52%. Heloísa está “invadindo” parte do eleitorado mais escolarizado de Alckmin, especialmente no Sul e Sudeste. A margem de erro da pesquisa, que entrevistou 6.264 pessoas, é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Se a senadora que mudou os sisudos hábitos de vestir no Senado, adotando a calça jeans e camiseta branca, poderá mudar também o rumo da eleição brasileira, é uma pergunta cuja resposta só virá em outubro.
Reações
Diante da possibilidade de segundo turno na eleição, indicada em pesquisas de intenção de voto, o comando da campanha petista decidiu rever sua tática eleitoral e jogar o presidente Lula nos braços do povo. Para popularizar ainda mais a imagem do presidente-candidato, que assumirá o estilo garoto-propaganda do governo nas viagens, o comitê da reeleição prepara atos de rua nos estados.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou que sua campanha só vai começar a partir de 1º de agosto. Ele disse que não se preocupa com o aumento das intenções de voto na sua adversária Heloísa Helena, senadora expulsa do PT e hoje candidata do PSOL à presidência da República.
Logo depois desembarcar em Córdoba, onde participou da 30ª Reunião de Cúpula do Mercosul, Lula declarou que considera "ótimo" o avanço de sua concorrente - mesmo ciente de que esse movimento tornará cada vez mais difícil sua vitória no primeiro turno - e ressaltou que espera o mesmo de outros candidatos. "O crescimento dela é importante para a democracia brasileira", disse Lula.
Fonte: Via Política
Foto: Célio Azevedo (Senado Federal)
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