Lula é reeleito com 58 milhões de votos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito ontem com 60,8% dos votos válidos contra 39,2% de seu adversário Geraldo Alckmin (PSDB). Às 21h30, com 99% dos votos apurados, Lula tinha 57,8 milhões de votos, quebrando seu próprio recorde, de 2002, quando chegou a 52 milhões, e se tornando o presidente com a maior votação absoluta da história do Brasil.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito ontem com 60,8% dos votos válidos contra 39,2% de seu adversário Geraldo Alckmin (PSDB). Às 21h30, com 99% dos votos apurados, Lula tinha 57,8 milhões de votos, quebrando seu próprio recorde, de 2002, quando chegou a 52 milhões, e se tornando o presidente com a maior votação absoluta da história do Brasil.
Alckmin, por sua vez, não conseguiu repetir a performance do primeiro turno, quando chegou a 41,64% do total e conseguiu 39.968.369 de votos. No segundo turno, o candidato tucano perdeu quase 2 milhões de votos e ficou com 37,3 milhões.
Ao contrário do ocorrido no primeiro turno, Alckmin só venceu a eleição na Região Sul do País. Lula ganhou em todas as demais, inclusive no Sudeste. No Norte e Nordeste, a diferença pró Lula, como era esperado, foi ampla: 65% a 34% e 77% a 22%, respectivamente. O presidente recuperou o terreno no Centro-Oeste, onde venceu por 52% a 47%. No Sudeste, a vitória foi por 57% a 43% - Lula teve vitórias expressivas em Minas Gerais, onde o tucano Aécio Neves se reelegeu no primeiro turno, e no Rio de Janeiro. Em São Paulo, Geraldo Alckmin bateu Lula por 52,2% a 47,8%
Lula: "prato e bolso" decidiram
Em seu primeiro discurso após a reeleição, o presidente Lula afirmou que o Brasil vive um "momento mágico" de consolidação do processo democrático e que o mérito é do povo. Lula fez o pronunciamento, no Hotel Intercontinental de São Paulo, onde acompanhou a apuração. O presidente vestia uma camiseta com a frase "a vitória é do Brasil" e logo no início do discurso justificou a escolha: "A vitória não é do Lula, não é do PT, não é do PCdoB, não é de nenhum partido político. É a vitória da sabedoria do povo brasileiro."
O presidente voltou a afirmar que as "as bases estão dadas" para o Brasil crescer. "Tinha consciência de que tínhamos construído um alicerce para o País dar um salto neste segundo mandato." Ele citou as conquistas de seu governo, como os resultados positivos na economia, a consolidação das relações internacionais e a importância dada ao Mercosul.
Lula agradeceu ao povo que, segundo ele, foi incitado, em vários momentos, a ter dúvidas contra o governo. Mas, segundo o presidente, a população sentiu "no prato e no bolso" a melhora no País e, contra isso, "não há adversário".
O presidente prometeu um "salto de qualidade extraordinário" para o próximo mandato e admitiu que aprendeu muito nos primeiros quatro anos. "Nós cansamos de ser uma potência emergente, nós queremos crescer", declarou o presidente. Lula prometeu discutir logo no início do mandato a reforma política porque, para ele, o processo eleitoral mostrou a necessidade do fortalecimento das instituições políticas. O presidente também convocou os governadores a trabalhar com o governo federal.
Oposição mais branda
Confirmada a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a expectativa fica por conta da formação da nova equipe de governo. Na visão dos analistas o cenário atual é de muitas incertezas e somente após a conclusão das negociações políticas será possível ter mais clareza sobre os rumos do próximo governo. Apesar das dificuldades aparentes, o otimismo permeia a maior parte das análises que julgam o presidente capaz de construir uma base mais sólida no Congresso e conseguir aprovar projetos importantes para o desenvolvimento do País.
O cientista político da Tendências Consultoria, Rogério Schimitt, vê a possibilidade de cooperação entre o governo e a oposição para aprovar projetos de consenso. "A oposição terá interesse em cooperar porque tem os melhores nomes para 2010. Como Lula não poderá ser candidato novamente, é interessante que a próxima administração faça o 'trabalho sujo'. Assim José Serra (PSDB) ou Aécio Neves (PSDB) assumiriam com uma melhor estrutura". Entre o "trabalho sujo", o analista lista reformas constitucionais impopulares, como a da Previdência e a trabalhista.
Para Schimitt, a principal variável de para o sucesso do novo governo Lula é a composição entre o PT e aliados nos cargos chave. "O grande problema do primeiro mandato foi o excesso de petistas e o pouco espaço para os quadros de outros partidos. Esse problema tende a ser sanado agora com uma divisão maior, em especial com o PMDB", aposta.
A avaliação é acompanhada pelo professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) Wagner Iglecias. Ele observa um afastamento de Lula do PT paulista e de sindicalistas, com o crescimento de figuras como os ministros petistas Tarso Genro e Dilma Roussef e o ex-ministro Ciro Gomes (PSB).
Iglecias acredita que o tom radical da oposição deve se amenizar com o enfraquecimento de Jorge Bornhausen (PFL) e Tasso Jereissati (PSDB) e será possível fechar uma agenda mínima no Congresso. "Lula vai querer encerrar bem sua carreira política e interessa a Serra e Aécio uma boa relação com o governo federal. Por isso o segundo mandato deve começar bem e deverá haver acordo para a votação das reformas política, tributária e da Previdência". O professor destaca como outra vantagem de Lula o aumento do número de governadores aliados ao presidente. "Os governadores têm grande controle sobre as bancadas e isso deve facilitar ainda mais a construção de maioria no Congresso."
O cientista político Murilo Aragão é menos otimista com o início do mandato. "Lula não venceu com a mesma força de Fernando Henrique Cardoso ou dele próprio em 2002. O governo é sucesso de público, mas tem forte oposição dos formadores de opinião", destaca. Ele vê possibilidade de melhoras no decorrer do mandato se não houver nenhum fato novo de corrupção. "Será preciso recuperar primeiro o prestígio político e formar uma base ampla no Congresso. Além disso, é preciso indicar como o País poderá crescer, uma vez que essa é a grande demanda da sociedade neste momento."
A questão do desenvolvimento certamente será fundamental para o sucesso do próximo governo, mas de acordo com o professor de Ciências Econômicas da Unicamp Márcio Pochmann não há certeza sobre o caminho da política econômica do governo. "Nunca houve tanta demanda por crescimento econômico como agora, mas só será possível saber qual o destino do governo após a formação da equipe."
Na visão de Pochmann, existem três grupos dentro da atual administração. Um deles defende a continuidade do atual modelo, focado no monetarismo. Outra corrente, comandada por um dos principais consultores de Lula, o ex-ministro Delfim Netto (PMDB), defende uma ortodoxia ainda maior e um aperto fiscal que permita um déficit nominal zero. Por último, há a ala desenvolvimentista, que tem como grande expoente o atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, que vê no aumento do ritmo de crescimento da economia a única saída para o País. "Somente após saber quem venceu essa disputa interna teremos clareza sobre o rumo do próximo governo", diz o professor da Unicamp.
Fonte: DCI
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