"Vou continuar como militante"
Aos 75 anos, o senador Roberto Saturnino (PT-RJ), que dedicou mais de quatro décadas à vida política – iniciada em 1962, como candidato a deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) –, resolveu abandonar a longa trajetória de mandatos no Executivo e Legislativo, mas não a política. Eleito em 1999 para seu terceiro mandato no Senado, com mais de 2,3 milhões de votos, filiou-se ao PT em 2002.
Aos 75 anos, o senador Roberto Saturnino (PT-RJ), que dedicou mais de quatro décadas à vida política – iniciada em 1962, como candidato a deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) –, resolveu abandonar a longa trajetória de mandatos no Executivo e Legislativo, mas não a política. Eleito em 1999 para seu terceiro mandato no Senado, com mais de 2,3 milhões de votos, filiou-se ao PT em 2002. O senador também integrou outros partidos, tendo sido um dos fundadores do antigo MDB. Sua vida parlamentar, convicções e planos são resumidos nesta entrevista ao Jornal do Senado.
Senador, o senhor está na política há mais de 40 anos. É senador por três mandatos. Em 1998, a população do Rio de Janeiro o colocou novamente no Senado, contrariando todos os prognósticos, após a crise que o senhor enfrentou à frente da prefeitura do Rio. Por que não tentar a reeleição?
Saturnino – Exatamente porque depois de 45 anos chega um momento em que o estado físico da pessoa não dá mais. Eu não agüentaria mais oito anos de viagens Rio-Brasília, desempenhando o mandato, cumprindo o dever como eu fiz nesses últimos oito anos, quer dizer, eu fatalmente iria relaxar no cumprimento desse dever, e é importante saber e escolher a hora de sair. E sair bem, no momento em que estou encerrando o mandato e não fui derrotado.Uma coisa é sair encerrando o mandato, outra coisa é tentar uma eleição e sair derrotado.
O senhor está deixando definitivamente a política? Quais os seus planos?
Sim, no sentido de exercício de mandato. Mas vou continuar um militante atuante, participando de debates, de tarefas de formação de líderes e, principalmente, vou continuar escrevendo literatura, ficção e política, que é o que eu gosto de fazer. É uma agenda para a qual estou disponível com muita motivação daqui para frente. Também estou muito empenhado no projeto da comunidade sul-americana, do Mercosul, e quero participar dessas discussões.
Como o senhor avalia sua participação no Senado em todo esse período?
O que destaca um parlamentar é principalmente o pronunciamento, as justificativas de seus votos, a sustentação de suas posições e alguns projetos que apresenta e que eventualmente tenham sido acolhidos. Eu tive aprovado o projeto de regulamentação do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia, que é extremamente importante. A presidência da Comissão de Relações Exteriores do Senado, que ainda ocupo, também é importante, principalmente num momento em que a política externa do Brasil está tão destacada, mas ainda submetida a críticas de opositores. Acho que tudo isso é que destaca a presença do parlamentar, mais do que o número de projetos apresentados, que muitas vezes são proposições sem importância.
O que mudou na política desde sua chegada ao Senado, ainda nos anos 70, pelo antigo MDB?
Naquele tempo ainda estávamos debaixo do regime militar. Então a grande luta era pela abertura democrática e foi a luta na qual me empenhei, desde 1974 até 1982, quando me reelegi – e era para ter ficado até 1990 no Senado –, mas saí em 1986 para assumir a prefeitura do Rio e deixei o mandato ao meu suplente, que foi o senador Jamil Haddad. Mas era um momento ainda de luta pela democratização. Depois que a democracia foi restabelecida, acho que o país e o Congresso sempre refletem isso, custou-se a encontrar um caminho. Nós tivemos um período de hesitação, porque a democracia requer tempo de prática e a sociedade brasileira não teve esse tempo. Foram 20 anos entre 1945 e 1964 e agora mais 20 anos desde a abertura, o que é pouco. O eleitor, para fazer um julgamento, para ter independência no exercício do voto, para fazer a fiscalização, para fazer a escolha de seu partido e da orientação política, precisa de prática. E somente depois da abertura o povo está conseguindo fazer um julgamento autônomo, sem influência da mídia, do poder econômico ou de chefes políticos. O Estado nacional foi criado no tempo de Vargas, o território nacional foi ocupado no tempo de Juscelino Kubitschek. Mas o povo foi sempre desconsiderado e principalmente subordinado na sua opinião aos chamados formadores de opinião, que estavam sempre ou na classe média ou na mídia, ou em empregadores e empresários. Mas agora o povo assumiu, tomou as rédeas, e isso corresponde ao terceiro estágio desse projeto de democracia brasileira.
O senhor falou sobre o processo de redemocratização do país. O senhor não acha que a transição democrática foi um processo longo demais?
O processo de redemocratização demorou, mas os prazos políticos são extensos, especialmente os prazos da democracia. É natural. Foi um processo de toda a América Latina. E, aliás, o comportamento político da região é muito análogo: o que ocorreu em um país da América Latina ocorreu em quase todos. Assim como esse fenômeno agora do povo estar tomando as rédeas do processo, como está ocorrendo no Brasil, está ocorrendo no México, na Bolívia, no Equador, no Peru e na Venezuela, com o apoio ao presidente [Hugo] Chávez, apesar de toda a mídia ser contra ele. A vida política dos países latino-americanos é muito semelhante porque a formação histórica e cultural é parecida.
O Congresso estaria mais atuante? Mais próximo da população?
Acredito que sim. Pesa muito a existência dos meios de comunicação do Senado, que são meios de informação a respeito do que acontece na Casa, direcionados para a população. Antes o povo tinha pouco acesso, a não ser pela imprensa comum. Mas o noticiário do Congresso pela grande imprensa sempre foi muito pequeno, reduzido e parcial, na medida em que a imprensa tem seus interesses econômicos, noticia e informa segundo esses interesses. Então acho que os grandes instrumentos de informação são os meios de comunicação do próprio Senado.
Que mudanças são necessárias no Congresso?
O Congresso Nacional está sempre precisando mudar alguma coisa. Eu acho que, agora, a questão do orçamento impositivo tem de acontecer, mas dando uma certa margem ao governo. O Parlamento tem de recuperar – recuperar não, porque nunca teve na verdade –, tem que tomar a si o encargo de votar o Orçamento e ver realizada a votação expressa. Fala-se muito na reforma política, eu acho que é necessário, mas não há muito consenso a respeito do que seja essa reforma. Tudo aquilo que for em benefício do fortalecimento dos partidos e da redução da influência do poder econômico será muito bem-vindo.
O Brasil viveu um trauma político, com um processo de impeachment de um presidente da República, e, ao longo dos anos, a classe política vem protagonizando sucessivos escândalos. Como dissociar a política dessa cultura de corrupção? É possível uma "política limpa"?
É possível, sim. Não é só possível, como é desejado. É uma meta. Mas isso só se consegue na medida em que esses assuntos são abertos, em que a transparência se instala. Não é que haja hoje mais corrupção do que havia no passado. Hoje ela é muito mais mostrada à população. Acho que um dos grandes fatores do apoio popular que o presidente Lula está tendo é o fato de as comissões parlamentares de inquérito terem funcionado. Elas mexeram, abalaram e supostamente prejudicariam sua imagem. Mas foi o contrário. O fato de ele não ter impedido essas CPIs, o fato de o procurador-geral da República não engavetar nada, de a Polícia Federal estar investigando e descobrindo quadrilhas, quer dizer, essa exibição e transparência estão num grau em que nunca estiveram na história do país. Isso por um lado dá a impressão de que a corrupção aumentou, mas por outro lado é muito positivo, porque é o único meio de se combater a corrupção.
Como seria possível garantir um Legislativo mais qualificado, mais compromissado com so-luções para os problemas do país?
Praticando a democracia. Em cada eleição se dá um debate político muito mais aprofundado. Cada debate político produz elevação da cultura política do povo e é assim que vai melhorando a escolha dos parlamentares, pela prática. A população tem de ser mais seletiva, rigorosa na seleção. Não há outro caminho.
O senhor concorda que há dificuldades para o surgimento de novas lideranças políticas?
Não acredito, não. Acho que as novas lideranças vão se formando naturalmente. Agora, os estilos de liderança é que vão mudando à medida que a forma de fazer política muda. O grande líder retórico do passado, o grande discursador não tem mais a mesma projeção, porque hoje a política torna-se mais exigente em termos do conhecimento dos problemas, de argumentação sólida e de demonstração de resultados de políticas aplicadas. Tornou-se mais objetiva e menos retórica. Então o estilo de liderança mudou. Hoje se exige mais o líder articulador, argumentador, que expõe as razões com mais clareza e objetividade.
O Brasil viveu novamente, na campanha, um acirramento das disputas político-partidárias, com clima de radicalização. Co-mo é possível construir um ambiente de debate saudável e de governabilidade?
Acho que a radicalização ocorre no momento eleitoral. Uma vez ultrapassado esse período, as taxas de radicalização dos discursos ca-em. E fica mais pro-pício construir consensos pa-ra dar governabilidade ao can-didato aprovado pela maioria da população. Mais uma vez é a prá-tica democrática que indica is-so. Hoje é impensável criar obstáculos de tal maneira que suscitem crises institucionais, para depois vir um golpe. Isso no Brasil não pega mais. O que se exige é o esforço de formação de consenso, de negociação. Cede um pouco dali, avança um pouco acolá. Esse é o caminho da democracia.
Durante toda sua vida política o senhor lutou pela vitória de um governo do campo da esquerda. E durante este mandato filiou-se ao PT. O senhor considera que o governo Lula correspondeu às suas expectativas?
Fui crítico ao governo Lula por ter sido conservador na política fiscal e monetária. Era necessária certa prudência, mas o governo foi excessivamente prudente e os resultados em termos de crescimento estão aquém do possível, dado o dinamismo da economia. Mas essa desvantagem foi compensada pela melhoria da distribuição da renda, que é o problema brasileiro. Esse é o grande projeto nacional, porque não podemos mais continuar com a concentração de renda, com a injustiça social que o Brasil vive há décadas.
Fonte: Jornal do Senado
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