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Empossados: em cerimônia tranquila e sem surpresas, presidente e vice recebem mais quatro para conduzir a República

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:03 Congresso em Foco


Apesar de ter sido preparada com quase um mês de antecedência, a cerimônia de posse para o segundo mandato do presidente Lula foi norteada de surpresa momentos do evento. Tudo por conta do céu carregado que cobria a capital federal nesta segunda-feira (1°). Cerca de 15 minutos antes do início do desfile, ainda não se sabia se o petista desfilaria em carro aberto pela Esplanada dos Ministérios ou se seguiria com a capota do Rolls-Royce da presidência fechada para escapar da chuva.

Apesar de ter sido preparada com quase um mês de antecedência, a cerimônia de posse para o segundo mandato do presidente Lula foi norteada de surpresa momentos do evento. Tudo por conta do céu carregado que cobria a capital federal nesta segunda-feira (1°). Cerca de 15 minutos antes do início do desfile, ainda não se sabia se o petista desfilaria em carro aberto pela Esplanada dos Ministérios ou se seguiria com a capota do Rolls-Royce da presidência fechada para escapar da chuva.
 
O clima, porém, deu uma trégua e permitiu o cumprimento do protocolo como previsto. Lula e o vice-presidente José Alencar deixaram a Catedral da cidade por volta das 16h10, em carro aberto, seguindo em direção ao Congresso Nacional. O desfile, em ritmo acelerado para compensar os dez minutos de atraso, correu sem surpresas.

Algumas pessoas acompanhavam o trajeto ao longo do meio-fio. Por conta da chuva, o número de populares, em torno de 10 mil, foi bem menor que os 50 mil esperados pelo cerimonial. No caminho, houve somente um contra-tempo: uma pessoa entrou na pista em direção ao carro de Lula, mas foi contido rapidamente pelos seguranças.

No Congresso, o presidente e o vice foram recebidos pelos presidentes do Congresso – e também do Senado –, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Os quatro, acompanhados das respectivas esposas, subiram a rampa do parlamento e seguiram para o plenário da Câmara, onde parlamentares, a maior parte da base aliada, receberam Lula e José Alencar.

Os dois assinaram o termo de posse e se firmaram oficialmente no cargo até 31 de dezembro de 2010. Em seguida, o petista discursou por cerca de 45 minutos. Ele prometeu investir em educação e retirar as travas que impedem o crescimento da economia.

“É preciso desatar alguns nós decisivos para que o país possa usar a força que tem e avançar com facilidade. Construímos os alicerces e temos um projeto claro de país a ser realizado”, afirmou.  “É preciso uma combinação ampla e equilibrada, investimento público e privado. Temos que desobstruir os gargalos e as amarras que impedem cada um desses setores. Isso significa ampliar o investimento público e desonerar o investimento privado”, emendou.

Atos de violência

O presidente Lula criticou os atos de violência cometidos por facções criminosas no Rio de Janeiro na semana passada. Em discurso do parlatório do Palácio do Planalto, ele classificou o episódio como um ato terrorista e prometeu punição exemplar aos culpados.

”Vou conversar com meu ministro da Justiça para que essa barbaridade do Rio de Janeiro não seja tratada como crime comum. Isso é terrorismo. Já extrapolou o banditismo convencional. Quando um grupo de chefes de dentro da cadeia consegue da ordem para matar inocente na rua, nós precisamos discutir profundamente, porque o que aconteceu no Rio de Janeiro foi uma prática terrorista das piores que já vi nesse país”, declarou.

Após a cerimônia de posse, o novo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), conversou com Lula e pediu que o presidente antecipe o envio da Força Nacional de Segurança para combater o crime e garantir a tranqüilidade dos moradores. O anúncio oficial vai ser no dia 3 de janeiro.

Obra divina

Falando de improviso, o presidente ressaltou novamente a origem de retirante nordestino que chegou ao mais alto cargo da República. Em tom messiânico, ele afirmou que sua reeleição foi obra da providência divina. “Recebo isso como uma benção de Deus, porque eu digo sempre que chegar onde eu cheguei saindo de onde eu sai eu só posso dizer que existe um ser superior que decide os destinos de cada um de nós.”

Lula agradeceu aos eleitores e exaltou sua relação com o povo. Disse que, nos momentos difíceis, a população “entrou em campo” para defender o governo. “Em momentos muito difíceis, quando alguns imaginaram que o jogo tinha acabado, o povo entrava em campo e dizia claramente: 'nós construímos a democracia deste país, nós vamos sustentar a democracia deste país, custe o que custar, doa a quem doer'”, reforçou.

O presidente, sindicalista, elogiou o trabalho de José Alencar na vice-presidência e afirmou que consegue ver no colega, empresário, a união ideal entre capital e trabalho. Lula agradeceu também aos parlamentares e disse que sempre pode contar com a ajuda de deputados e senadores para aprovar projetos importantes. Em seguida, ele disse que espera contar com essa agilidade no próximo mandato.

O petista agradeceu também aos estudantes, mulheres e aos trabalhadores e disse, como presidente, abriu as portas do governo à população. “Quando fui dirigente sindical, a gente tinha até dificuldade de entrar no Congresso. Nesse palácio, nem pensar. Esse palácio precisa aprende a receber aqueles que muitas vezes nem conseguem passar perto dele.”

Lula prometeu novamente destravar o país para promover um crescimento sustentável, duradouro e com distribuição de renda nos próximos quatro anos. Ele afirmou ainda que será o presidente de todos, mas que vai priorizar os menos favorecidos. “Sou presidente de todos, sem distinção. Mas não se engane. Eu continuarei fazendo o que faz uma mãe. Eu cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, dos mais fragilizados”, avisou.

O petista falou do público modesto que acompanhou o discurso – abaixo dos 50 mil esperados – e reclamou do fato de a posse ocorrer no dia 1° de janeiro. Depois, quando já deixava o parlatório, ele retornou e agradeceu a presença de um convidado ilustre, o carnavalesco Joãozinho Trinta. Lula encerrou o discurso com a frase que marcou a campanha eleitoral: “Deixa o homem trabalhar, senão o país não cresce”. Ao final, Lula desceu a rampa e saudou a população estendendo a mão para as pessoas.

Escondidos

Alguns líderes petistas, que se afastaram do governo depois de se envolverem em denúncias, também compareceram à posse do presidente Lula.  Os deputados eleitos José Genoino (PT-SP) e Paulo Rocha (PT-PR), o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) e o ex-deputado Professor Luizinho (PT-SP) acompanham a solenidade.

O ex-presidente do PT José Genoíno justificou sua presença dizendo que sempre participa das posses presidenciais, desde José Sarney. "Sou apenas mais um participante da solenidade. Vim nas posses do Sarney, do Collor, nas duas do Fernando Henrique e não tinha como não vir agora", afirmou. Genoino declarou que, na próxima legislatura, atuará de forma discreta. "Vou falar menos e ter mais pé no chão", prometeu.

Acusado pela Polícia Federal de co-participação no esquema da compra de um dossiê para incriminar políticos tucanos, o senador Aloizio Mercadante afirmou que não mudará seu estilo e pediu mudanças na política econômica. "O governo tem que ter coragem de assumir que não basta continuar o que fez".
 
Um dos poucos parlamentares oposicionistas a participar da cerimônia de posse do presidente Lula, o líder da minoria na Câmara dos Deputados, José Carlos Aleluia (PFL-BA), fez duras críticas ao presidente e afirmou que a oposição não apareceu na cerimônia prevendo um pronunciamento "medíocre" do presidente.

"O que o Lula falou deixou claro é que o governo antigo acabou e o novo não foi capaz de começar. Foi um discurso vazio. Ele acerta no diagnóstico, mas é incapaz de apresentar proposta". Nenhum deputado ou senador do PSDB acompanhou o ato.

Reivindicações

O cacique Marcos Luidson, da etnia Xucuru, também esteve presente na cerimônia do Palácio do Planalto. Ele, que lidera cerca de 10 mil índios, destacou que o presidente Lula precisa olhar mais pelos povos indígenas. “Esperamos que o governo possa concretizar a promessa de criar o Conselho Indigenista. É preciso reparar os danos que a população indígena sofreu. Queremos um diálogo maior com o presidente ”, disse Marcos Luidson, conhecido como "Marquinhos Xucuru".

O bispo dom Thomaz Balduíno, de 84 anos, declarou que o governo precisa dar mais autonomia para os movimentos populares. O bispo, que é um dos conselheiros da Comissão Pastoral da Terra, criticou a política agrária governamental. “O governo Lula, em seu primeiro mandato, teve uma relação precária com a reforma agrária. Não há perspectivas de uma reestruturação fundiária. A reforma agrária ficou confinada a modelos compensatórios”, afirmou.

Dom Thomaz Balduíno acredita que a política agrária, realizada no primeiro mandato, será mantida pelo atual governo. “Eu acho que haverá diálogo neste segundo mandato, mas a política agrária será mantida. Eu acho equivocada a decisão do presidente, mas é uma opção dele. Para que algo melhorasse seria preciso que o presidente se colocasse ao lado das forças sociais que o elegeram, e isso não houve no primeiro mandato. Ele poderia se comprometer com a política agrária, mas não fez”.

Fonte: Congresso em Foco

Foto: Marcello Casal Jr/ABr




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