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Brasil prepara-se para revidar 'invasão' de produtos chineses

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:05 Carta Maior


O comércio do Brasil com o exterior observa uma mudança histórica neste ano. Em janeiro, a China tornou-se o segundo maior vendedor de mercadorias ao mercado brasileiro, destronando a Argentina, que ocupava a posição há tempos - a liderança segue com os Estados Unidos. A entrada de produtos chineses cresce sem parar desde 1999 e intensificou-se a partir de 2003.

O comércio do Brasil com o exterior observa uma mudança histórica neste ano. Em janeiro, a China tornou-se o segundo maior vendedor de mercadorias ao mercado brasileiro, destronando a Argentina, que ocupava a posição há tempos - a liderança segue com os Estados Unidos. A entrada de produtos chineses cresce sem parar desde 1999 e intensificou-se a partir de 2003. Por uma opção diplomática do governo Lula, que quis diminuir a dependência de americanos e europeus, a nação asiática passou a ser tratada como parceira estratégica. De 2002 a 2006, as importações brasileiras dobraram, mas as vindas da China quintuplicaram e já representam 8%. Na contramão, as exportações brasileiras à China "apenas" triplicaram e, mesmo assim, equivalem a só 1% das compras daquele país.

Para tentar equilibrar a relação entre os dois países nos próximos anos e tirar mais proveito dos laços comerciais que se apertaram nos últimos tempos, o governo está preparando uma "invasão" da terra de Mao Tsé Tung. Esse será um dos principais planos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) para este ano.

Na segunda quinzena de março, o MDIC começará a procurar empresários para convencê-los a apostar mais no embarque de mercadorias rumo ao mercado chinês. A idéia é montar uma missão empresarial que vá até lá ainda no primeiro semestre, para negociar com autoridades locais medidas que facilitem os negócios. "A China não deve ser um parceiro estratégico só nas importações, a gente também quer vender mais para lá", diz o secretário de Comércio Exterior do ministério, Armando Meziat.

O plano do MDIC sinaliza uma certa mudança da postura que se verificou nos últimos tempos, quando o assunto é comércio com a China. Até aqui, a atitude mais comum entre os empresários nacionais era reclamar para o governo da enxurrada de importações chinesas e tentar fazer com que autoridades brasileiras arrancassem de Pequim medidas de autocontrole das vendas ao Brasil. Agora, o governo resolveu agir dentro da trincheira adversária. "Chega de chorar. Vamos atacar do outro lado também", afirma Meziat.

Gigantesco mercado

O alvo do ataque armado pelo governo é gigantesco. No ano passado, a China pagou US$ 791 bilhões fazendo compras pelo exterior, oito vezes mais que o Brasil. Cofres brasileiros ficaram com apenas 1% (US$ 8,4 bilhões) da gastança. E o pior. Mais de 70% dos negócios envolviam produtos de baixo valor agregado. E 60% concentraram-se em duas mercadorias - soja (US$ 2,4 bilhões) e minério de ferro (US$ 2,6 bilhões). Enquanto isso, a China despejava por aqui uma gama de produtos mais variada, cara (eletrônicos, máquinas, produtos químicos) e volumosa. O país forneceu 8% das importações brasileiras.

Para o empresariado envolvido nas transações, o Brasil tem condições de ampliar sua fatia nas compras chinesas, reforçando, sobretudo, transações com artigos industriais, que têm maior valor agregado. Essa é a avaliação do Conselho Empresarial Brasil-China. Segundo um estudo da entidade, ao contrário do que se poderia imaginar, as mercadorias brasileiras têm competitividade na China. Custam preços que consumidores chineses podem pagar ou já pagam a fornecedores locais ou de outros países. O trabalho aponta uma série de áreas com potencial de crescimento das vendas que o governo levará em conta na 'invasão' da China.

"Apesar da concentração em minérios e no complexo soja, as exportações brasileiras à China têm registrado dinamismo relativo em segmentos de teor tecnológico intermediário, como couros, papel e celulose, e em insumos industriais, como autopeças, produtos químicos e algumas máquinas e aparelhos elétricos e mecânicos", diz o estudo, que aponta "crescimento da complementaridade industrial entre os dois países".

Para Meziat, a competitividade não foi explorada devidamente até agora porque o Brasil teria demorado a descobrir o gigantesco mercado chinês. Países que chegaram antes ocuparam espaço que fica difícil de tomar. A turbulência nos mercados financeiros pelo mundo nos últimos dias tem, aliás, relação com os pioneiros da ocupação. A instabilidade ocorreu porque o governo chinês resolveu apertar a fiscalização das empresas para coibir fraudes. A decisão foi interpretada como uma forma de combater o espírito de "terra sem lei" encontrado e adotado pelas empresas que estão lá há tempos.

André Barrocal
Carta Maior



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