Ações do documento

A volta dos que já foram

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:17 Congresso em Foco


Um dos mais importantes pintores do século 17, o holandês Rembrandt Van Rijn (1606/1669) é autor de uma das obras de arte mais intrigantes e instigantes da história. Trata-se de A volta do filho pródigo, quadro barroco inspirado na parábola bíblica (Lucas 15, 11-32) que conta a história de desvios, perdão e proteção paternal protagonizada por um pai e seus dois filhos de vidas opostas.

Mais de 50 ex-parlamentares retornam ao Congresso num reencontro com um passado que nem sempre traz lembranças felizes

Fábio Góis

Um dos mais importantes pintores do século 17, o holandês Rembrandt Van Rijn (1606/1669) é autor de uma das obras de arte mais intrigantes e instigantes da história. Trata-se de A volta do filho pródigo, quadro barroco inspirado na parábola bíblica (Lucas 15, 11-32) que conta a história de desvios, perdão e proteção paternal protagonizada por um pai e seus dois filhos de vidas opostas.

Em suma: o filho mais novo se apossa do dinheiro do abastado pai, cai numa vida pregressa e, na bancarrota moral e financeira, regressa. O pai o acolhe com carinho e comiseração. Durante todo o tempo em que o caçula se perdia em hábitos mundanos, o irmão mais velho dava exemplo de bom filho. E, por isso, não entendia a atenção excessiva que o pai dedicava ao errante, mesmo depois de tanto desgosto, enquanto ao filho exemplar era dispensado o tratamento corriqueiro. Eis o drama.

O que a obra de Rembrandt tem a ver com a política brasileira? Tudo. Nossa relativamente nova República (ou seria novo o povo?) dá seguidos exemplos de tolerância e perdão a debandadas ou supostos desvios de alguns de nossos políticos. Tanto é verdade que muitos “pródigos”, depois de uma ou mais legislaturas afastados do Parlamento brasileiro, estão de volta para a jornada 2007/2011, arrependidos ou não de seus deslizes – se é que eles existiram, claro.

Alguns, como Valdemar Costa Neto (PR-SP) e Paulo Rocha (PT-PA), renunciaram ao mandato após terem sido envolvido em escândalos (no caso, o do mensalão). Outros sofreram derrotas eleitorais ao tentar vôos mais altos, como cargos no Executivo estadual ou federal. E houve aqueles que simplesmente não se reelegeram, entre outros motivos. Mas o fato é que agora estão novamente credenciados pelo povo (o “pai” da parábola?) para trabalhar pelo bem da nação.

 A bancada dos que já foram e agora voltam é farta. Reúne pelo menos 45 deputados e sete senadores de partidos tão distintos quanto suas próprias trajetórias políticas (veja a lista completa). Alguns deles voltam ao Parlamento tentando se livrar dos fantasmas que, no passado, os conduziram do céu ao inferno político. Na Câmara, os exemplos são fartos: Paulo Maluf (PP-SP), José Genoino (PT-SP), Antonio Palocci (PT-SP), Alceni Guerra (PFL-PR) e Ibsen Pinheiro (PMDB-RS).

O novo velho Maluf

 A voz, inconfundível, continua a mesma. Mas, na Justiça, quanta diferença! Desde que deixou a Câmara, no início de 1987, Paulo Maluf se viu alvo de uma série de denúncias por crimes de lavagem de dinheiro e contra o sistema financeiro (evasão fiscal), formação de quadrilha e corrupção. Nesse período, acumulou cinco derrotas eleitorais, inclusive para presidente da República, em 1989, e apenas um mandato: a prefeitura da capital paulista (1993-1996).

 Acusado de intimidação de testemunha em 2005, o ex-prefeito de São Paulo passou 40 dias preso, ao lado do filho Flávio Maluf, na carceragem da Polícia Federal em São Paulo. Foi libertado porque o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou frágil o seu estado de saúde e “avançada” a sua idade. Contrariando o diagnóstico do Supremo, Maluf foi flagrado por jornais comendo pastéis e tomando chope em um bar de Campos de Jordão, logo após ser posto em liberdade.

De novo deputado, eleito com mais de 740 mil votos, o ex-prefeito está agora protegido pela prerrogativa garantida pelo mandato de só poder ser julgado pelo STF, o chamado foro privilegiado. Convertido de ex-inimigo do PT paulista a aliado do governo Lula, Maluf só se viu incomodado uma vez desde que assumiu o mandato.

No início do mês, a Justiça dos Estados Unidos abriu processo criminal contra o deputado por evasão de divisas. Maluf é acusado de ter desviado US$ 11,6 milhões de obras públicas de São Paulo para um banco norte-americano (leia mais). Em nota, a assessoria de imprensa dele disse que todas as acusações contra o parlamentar “jamais foram provadas”.

Collor, o retorno

No Senado, o caso mais simbólico é o do ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL). Deputado federal entre 1983 e 1987, o ex-presidente voltou à vida política em grande estilo: desfilando pelo tapete azul do Senado. Primeiro presidente da história da República a sofrer processo de impeachment, em 1992, o ex-caçador de marajás subiu à tribuna no último dia 15 para um pronunciamento “histórico” – segundo as palavras de seu ex-líder de governo, o atual presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) – sobre sua derrocada política.

Por mais de três horas e diante de um plenário silencioso e quase lotado, Collor discursou firme e comovidamente, detalhando momentos do processo e acusando de arbitrariedade a comissão parlamentar de inquérito criada na época para “caçá-lo”.

Conseguiu declarações de apoio igualmente emocionadas de ex-aliados como os senadores Mão Santa (PMDB-PI) e Romeu Tuma (PFL-SP), que levou o ex-presidente às lágrimas ao lembrar do tratamento correto que Collor lhe teria dispensado quando, em seu governo, comandou a Polícia Federal e a Receita.  E provocou colocações respeitosas e comedidas, inclusive de ex-adversários, como o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), que afirmou ter agido segundo suas “próprias convicções” como membro da chamada CPI do PC.

Com visíveis marcas do tempo no rosto, Collor diz que agora, aos 57 anos, está pronto e mais maduro para novos desafios do que quando, aos 40, recebeu o cargo mais importante do país. “Meu desejo é poder oferecer um projeto que pretendo apresentar em breve, de uma reforma política ampla, profunda, porque entendo que a reforma política seja a mãe de todas as reformas. E, ao mesmo tempo, aprender, porque nesta Casa se aprende muito”.

As aulas já começaram. Em tempo: o discurso lido por Collor é poeticamente intitulado Resgate da história – A verdade sobre o processo do impeachment. Assista aqui ao vídeo da entrevista que Collor concedeu ao Congresso em Foco sobre esse e outros assuntos.

Renúncia estratégica

Políticos bem conhecidos da população politicamente ativa foram postos ainda mais em evidência depois da explosão das denúncias – trazidas à tona no já célebre pronunciamento-espetáculo do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) – sobre o esquema de pagamentos sub-reptícios a deputados. Ou, como queiram, o famigerado mensalão. Para não perderem seus direitos políticos, uma vez que corriam o risco de serem cassados em plenário, alguns deles renunciaram ao cargo. E estão de volta.

É o caso do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), que, em agosto de 2005, encurralado pelo Ministério Público, pela imprensa, pela opinião pública e pelos próprios colegas, decidiu recorrer à manobra para disputar as eleições de 2006. E conseguiu. Acuado, caiu atirando: foi o autor do processo que resultou na cassação do delator-mor, Roberto Jefferson. E mesmo acusado de envolvimento com o esquema da compra de votos na Câmara, parece ter sido absolvido pela população de São Paulo, que o reconduziu ao cargo de deputado federal por mais quatro anos. E com expressivos 104.157 votos.

Outro personagem do longa-metragem do mensalão, o ex-presidente do PT e, agora, mais uma vez deputado José Genoino começa a despontar como uma das novas forças governistas no Congresso, após dedicar os seis mandatos anteriores ao papel de árduo oposicionista.

Em abril de 2006, o ex-guerrilheiro teve o seu nome incluído na lista dos 40 denunciados pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, como integrantes do “organograma delituoso”, ao lado do ex-ministro José Dirceu e do ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, entre outros. Alegando desconhecer as movimentações financeiras feitas pelo partido que presidia, Genoino deixou o comando do PT para se recolher a um silêncio profundo, só interrompido durante as eleições. Petista histórico, elegeu-se para a nova legislatura com 98.729 votos. Mal assumiu o novo mandato, já começa a dar mostras de sua reconhecida capacidade como orador e articulador.

Idas e vindas

Mas nem todos os “velhos calouros” da atual legislatura começam o mandato tentando apagar capítulos de suas vidas políticas. Alguns voltam à Casa com o saudosismo de quem entende que o Parlamento já viveu dias melhores. É o caso do senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE). Ele é, aliás, um dos raros integrantes da bancada dos ex que ficou longe do Congresso nos últimos anos sem ter perdido uma eleição sequer (governou o seu estado por dois mandatos consecutivos).

“Tenho uma experiência anterior de dois mandatos como deputado federal, um na década de 70 e outro na de 80. É uma vantagem importante. Mas eram momentos diferentes. Naquela época o país ainda vivia dentro de um regime militar, dentro do bipartidarismo: ou era governo ou oposição”, resume Jarbas, que estava há cerca de 20 anos afastado do Congresso. Mas não longe da vida política. Pelo contrário, nesse ínterim, foi prefeito (em 1985 e em 1992) e governador de Pernambuco (1998/2006).

De lá pra cá, avalia o pernambucano, a imagem da Casa só se deteriorou. “O Congresso deveria ter mudado para melhor. E não mudou. Escândalos sucessivos criaram uma atmosfera ruim para o Congresso. Há 20 anos, a imagem do Parlamento era muito melhor do que a de hoje. E agora é preciso mudar essa imagem”, disse ele a este site.     

Um dos fundadores do antigo Movimento Democrático Brasileiro (o MDB, que deu origem ao PMDB), Jarbas Vasconcelos aposta na transformação como a marca de seu retorno. “Nós devemos priorizar uma agenda mínima de mudanças, de reformas. Primeiro, fazer uma abrangente reforma política, ainda neste ano, que eu considero a principal, a fundamental, a mãe das reformas. Sem ela, o Executivo vai ficar muito prisioneiro desse toma-lá-da-cá que existiu, sobretudo, nas últimas legislaturas”, vaticina.

E, continuando a agenda de prioridades, o veterano político ataca outros três capitais entraves ao desenvolvimento do país. “É preciso fazer a reforma tributária, complementar a reforma da Previdência, que foi feita pela metade, e fazer a reforma trabalhista. Vivemos em um mundo competitivo, globalizado, e se o Brasil não se ajusta, não se moderniza, não tem condições de dar um salto qualitativo”, conclui.

Pupilos da Constituinte

“Volto com o entusiasmo de poder representar o povo de meu estado, e, principalmente, em um momento de descrença da população em relação ao Congresso. Estou feliz porque, especialmente nesta legislatura, temos o papel de resgatar, com seriedade, o papel do legislador brasileiro, de resgatar a imagem do Parlamento”, promete Rita Camata (PMDB-ES), a “musa da Constituinte”.

Uma das mais jovens parlamentares da Assembléia, com seus belos olhos verdes e um certo ar de ingenuidade, destoava do panorama sisudo de deputados e senadores. Eleita deputada federal pela primeira vez aos 25 anos, em 1986, Rita retorna ao Congresso com considerável bagagem.

“Estou no meu quinto mandato. Sempre procurei trabalhar com seriedade, seguindo as minhas convicções, com uma linha de coerência. E, agora, sinto-me enriquecida com a experiência que tive no Executivo”, declara a deputada, que foi secretária de Desenvolvimento, Infraestrutura e Transportes do Estado do Espírito Santo (2003/2006). “É um acúmulo que acrescenta, o que não significa que os novos parlamentares que não o tenham não possam ter um bom desempenho”, completa.

Com uma atuação parlamentar voltada principalmente para as “questões sociais”, como ela mesma gosta de frisar, Rita afirma que precisa se reacostumar com os novos ares da Câmara. “Ainda estou navegando nesse mar tumultuado. A Casa mudou muito, mas sempre gostei do trabalho das comissões, que são um suporte muito bom”, contemporiza a deputada, mulher do senador Gerson Camata (PMDB-ES). Em 2002, ela trocou uma reeleição praticamente garantida para concorrer, sem sucesso, como vice na chapa encabeçada por José Serra (PSDB) à Presidência da República.

Assim como Rita, o senador Expedito Júnior (PR-RO) também guarda na lembrança sua passagem pela Assembléia Nacional Constituinte. Eleito pela primeira vez em 1986 como o deputado federal mais novo do país, então com 23 anos, Expedito estréia no Senado na condição de caçula entre seus pares, ao lado do ex-governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB), que também tem 44 anos.

Com três mandatos de deputado federal nas costas, apesar da pouca idade em relação aos demais senadores, Expedito garante que a experiência não é fundamental para se exercer um bom mandato. “Acredito que o Senado tem muitos bons profissionais, e nos dá boas condições de fazer um grande trabalho para a população brasileira. Temos mais condições do que na Câmara”, garante.

No retorno a Brasília, o senador quer eliminar do Código de Processo Penal a garantia de prisão especial aos presos com nível superior, privilégio classificado por ele como “elitista e injustificável”. Expedito ainda é lembrado pelos colegas pela forma peculiar com que chegava ao Congresso em seus tempos de deputado: pilotando uma moto.

Com histórias diferentes para contar, em busca ou não do acerto de contas com o passado, o certo é que os novos velhos parlamentares retornam à Casa se comprometendo a fazer soar o grito sufocado de seus eleitores. Uma das principais características do barroco de Rembrandt é exatamente a dramaticidade. Os personagens retratados em A volta do filho pródigo, por exemplo, parecem querer falar. O rosto do pai reflete a dor filho arrependido. Eleitos novamente, os congressistas não podem reclamar da acolhida. A ver se, no Congresso, cuidarão de oferecer reciprocidade à população, que os colocou lá.

Fonte: Congresso em Foco



Menu
 

Copyrigth 2006 - 2008 Servidor Público.net
Este site foi desenvolvido pela Simples Consultoria utilizando o Plone.