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País conta com seis hospitais entre os melhores do mundo

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:19 Folha de São Paulo/SP


Seis hospitais brasileiros, sendo dois públicos, conquistaram a principal certificação de saúde do mundo, o selo da Joint Commission International (JCI), entidade norte-americana que certifica serviços de saúde em mais de 60 países. Nos EUA, os pacientes usam esse selo como parâmetro ao escolher um hospital. O processo de certificação dura em média dois anos. São avaliadas centenas de itens, como o prontuário do doente e a capacitação de funcionários. O serviço é reavaliado a cada três anos.

Três instituições de SP, duas do Rio e uma de Porto Alegre receberam o principal certificado internacional de saúde

Processo dura em média dois anos e analisa centenas de itens, com foco na assistência e na segurança dos pacientes

CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Seis hospitais brasileiros, sendo dois públicos, conquistaram a principal certificação de saúde do mundo, o selo da Joint Commission International (JCI), entidade norte-americana que certifica serviços de saúde em mais de 60 países.

Nos EUA, os pacientes usam esse selo como parâmetro ao escolher um hospital. O processo de certificação dura em média dois anos.

São avaliadas centenas de itens, como o prontuário do doente e a capacitação de funcionários. O serviço é reavaliado a cada três anos.

O principal diferencial em relação a outras certificações é o foco na assistência e na segurança dos pacientes, não se limitando ao parque tecnológico.

O hospital Albert Einstein, de São Paulo, foi a primeira instituição fora dos EUA a obter o título da JCI, em 1999, e foi recertificado três vezes.

Também conquistaram o selo o Hospital do Coração (HCor) e o Samaritano, de São Paulo, o Moinhos de Vento, de Porto Alegre, e dois hospitais públicos do Rio, HemoRio e o Instituto de Traumatologia e Ortopedia.

Ainda foram certificadas três unidades ambulatoriais da Amil. O hospital Sírio Libanês (SP) está entre os cinco que devem obter o selo até dezembro.

Uma das metas da acreditação é reduzir o número de mortes. Nos EUA, estima-se que 100 mil pessoas morram por ano por erros de medicação.

Mudanças
Para atingir essa meta, os hospitais passam por grandes mudanças. No HCor, por exemplo, os psicotrópicos, drogas mais envolvidas em erros, ficam em um cofre. Só pessoas autorizadas têm a senha, e o lote é checado a cada plantão.

"Não dá para facilitar. É preciso ter toda a documentação sobre o medicamento", explica Pedro Mathiasi Neto, vice-diretor médico do HCor.

Ainda para evitar erros de medicação, o HCor, o Samaritano, o Einstein e o Moinhos de Vento informatizaram todo o processo de prescrição, alguns com o uso de palm tops.

O remédio já sai personalizado na farmácia do hospital, com o nome do paciente, posologia, horários etc. No leito, a enfermagem checa todos os dados. No Einstein e no Samaritano, os pacientes usam pulseiras com um código de barras onde as informações são rechecadas.

Local errado
Evitar a operação de membros errados é outra preocupação. No Einstein, os pacientes chegam ao centro cirúrgico com o local da cirurgia já demarcado.

"O médico checa, o enfermeiro pergunta e o paciente informa. Isso garante que o paciente certo seja submetido à cirurgia certa, no local certo", diz Claudio Lottenberg, presidente do hospital.

Essa situação parece incomum, mas não é. Em 2006, do total de eventos que acabaram em morte ou lesões sérias nos hospitais americanos, 13,1% foram cirurgias em local errado.

Certificação busca evitar mortes por erro
Cinco milhões de pessoas morrem no mundo por ano por falhas em medicação e outros processos dentro do hospital

Procedimentos precisam de autorização do paciente ou da família e resultados de exames passam por dupla ou até tripla checagens

DA REPORTAGEM LOCAL

Os hospitais certificados pela JCI integram hoje uma corrente mundial que tem como meta evitar 5 milhões de mortes por ano de pessoas vítimas de erros de medicação e de outras intercorrências dentro do hospital.

Segundo a médica Maria Manuela dos Santos, superintendente do CBA (Consórcio Brasileiro de Acreditação), que representa a JCI no Brasil, essa realidade só muda quando se cria uma cultura de medição e avaliação permanente nos serviços de saúde. "Na maioria das vezes, a culpa não é de um indivíduo, mas de todo um processo malfeito e mal-elaborado."

No HCor, o processo de certificação terminou com a contratação de 160 novos funcionários e com a equipe ainda mais motivada, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. "Não é um processo que a gente obriga as pessoas a fazer. Temos que convencê-las da participação", diz Antonio Carlos Kfouri, superintendente do HCor.

Uma medida importante adotada por todos os hospitais certificados foi a documentação do termo de consentimento informado -todo procedimento a que for submetido dentro do hospital, o paciente e o familiar precisam ser informados e concordarem com ele.

Para os resultados de exames também há duplas ou triplas checagens. Se o resultado passado por telefone der alterado, a informação é repetida duas vezes pelos interlocutores e precisa ser confirmada por uma terceira testemunha.

O mesmo rigor se aplica ao controle da infecção hospitalar. Na UTI pediátrica do HCor, o índice de infecção por cateteres foi reduzido em três vezes após o processo de certificação.

"Quanto mais tempo uma criança permanecer com a sonda urinária, maior é a chance dela ser infectada. Então, todo dia a equipe que passa pelo leito faz a pergunta: essa criança precisa mesmo desta sonda? Muitas vezes, a sonda poderia ter ficado apenas um dia e ficava dois ou três", diz o médico Pedro Mathiasi Neto, do HCor.

No hospital Moinhos de Vento, a taxa de consentimento informado passou de 39%, em 2004, para 79,1%, em 2006. Outra mudança foi o registro único do paciente. Antes, criava-se um prontuário cada vez que o doente era internado.

No hospital Samaritano, o processo de certificação levou também a uma revisão na atuação dos funcionários. Antes dele, por exemplo, só 27% da enfermagem trabalhava na assistência do doente. O restante estava envolvido em atividades administrativas. Hoje, 61% estão focados na assistência.

Segundo José Antonio de Lima, superintendente do Samaritano, a média de permanência do doente no hospital passou de 4,7 dias para 3,7 dias, o que também leva a uma diminuição dos riscos de infecção.

Amil
As três unidades ambulatoriais da Amil, chamadas de Total Care, certificadas pela JCI, tratam de pacientes crônicos, como diabéticos e hipertensos.

As unidades têm equipes de cardiologistas, endocrinologistas, enfermeiros, nutricionistas, entre outros, além de biblioteca com acesso à internet e um auditório para palestras.

Segundo Valter Furlan, gerente do Total Care Amil, o processo de certificação propiciou um aumento da adesão dos doentes ao tratamento. "O paciente ia à consulta médica e depois sumia do radar."

Em dois anos, o índice de adesão ao tratamento subiu de 50% para 87%. O ponto central do tratamento é manter indicadores médicos (colesterol, glicemia e pressão, por exemplo) sob controle.

No Into, a fila de espera está na internet

Organizar uma fila de 10 mil pessoas à espera de tratamento ortopédico e colocá-la na internet para o usuário acompanhar as chamadas por ordem cronológica. Foi uma das conquistas do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), hospital do SUS que fica no Rio, com a certificação da Joint Commission International.

O processo de certificação durou quatro anos e envolveu 1.400 profissionais do instituto. Entre as mudanças, houve a democratização da gestão, a criação de fóruns de discussão e a implantação de diversos novos processos e quantificação de resultados, comparando-os aos de outras instituições consideradas de excelência.

Segundo Isabela Simões, chefe da divisão médica e coordenadora da acreditação hospitalar do Into, outro ponto fundamental do processo foi um maior monitoramento da dor do paciente. "Antes, isso era feito só se o paciente pedisse."

A educação do paciente e a checagem se as informações foram compreendidas pelo doente também foram novidades no instituto que vieram com o selo. "Ele precisa entender o termo de consentimento, saber como será a reabilitação e os remédios que precisa usar."

A educação também é extensiva ao acompanhante do doente. "Ele é orientado a não ajudar o vizinho para não levar infecção para o outro. Tem que chamar a enfermagem e a enfermagem tem que atender."

O processo de acreditação levou o hospital a rever hábitos. Não era incomum, por exemplo, doentes crônicos deixarem de lado a medicação que tomavam em casa enquanto se recuperavam de uma cirurgia no hospital. Agora, a atenção está redobrada.

Hemorio
O Hemorio (instituto estadual de hematologia) foi o primeiro hospital público do país a conquistar o selo da JCI, ainda em 2000. De lá para cá, já foi recertificado três vezes.

Segundo Clarisse Lobo, diretora-geral do Hemorio, antes do selo, várias normativas não estavam bem estabelecidas nas relações médico-paciente. "A necessidade de pactuar com o paciente o que vai ser feito como terapêutica e o nível de sofrimento não eram situações culturalmente implantadas."

Ela afirma que, mesmo com a continuidade do processo de qualidade hospitalar, não se pode garantir que não haja erro. "Os seres humanos são falíveis. O importante é documentar, garantir que ele [o erro] seja rapidamente identificado e que pessoas que participam do processo cuidem para que ele não aconteça de novo."

Lobo faz um paralelo do erro dentro do hospital ao acidente entre o jato Legacy e o Boeing 737-800 da Gol, em setembro último. "É uma sucessão de erros. Se o processo não for corrigido, corre-se o risco de voltar a acontecer. Em vez de esconder debaixo do tapete, é preciso sentar, corrigir e monitorar a situação. É a única saída."

Entre as mudanças ocorridas no hospital, foram colocadas cortinas de separação entre as enfermarias para garantir privacidade aos doentes, e as camas ganharam grades para evitar quedas.

Fonte: Folha de São Paulo




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