Ações do documento

A lenta aproximação entre PSDB e PT tem futuro?

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:11 Política para Políticos


A eleição do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, do PT, com voto de alguns deputados tucanos foi um primeiro sinal. Mas as manifestações públicas de líderes do PSDB como Tasso Jereissati, que esteve recentemente com Lula e Aécio Neves, que mantém abertos os canais com o Planalto, são sugestivas. Quase ao mesmo tempo, há um lento afastamento do PSDB do DEM, ex-PFL.

Fernando Henrique Cardoso ainda é a resistência maior, mas Congresso tucano pode dar novos sinais

A eleição do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, do PT, com voto de alguns deputados tucanos foi um primeiro sinal. Mas as manifestações públicas de líderes do PSDB como Tasso Jereissati, que esteve recentemente com Lula e Aécio Neves, que mantém abertos os canais com o Planalto, são sugestivas. Quase ao mesmo tempo, há um lento afastamento do PSDB do DEM, ex-PFL. Nesse jogo todo o presidente Lula não perde tempo e também deixa vazar que convidou Fernando Henrique Cardoso para uma conversa, durante o encontro no sepultamento de Otávio Frias.

Dos líderes tucanos, Aécio é o que mais se movimenta. Ele não descarta uma aproximação com o governo e faz questão de admitir que nada é irreversível na política: "Não acho que devamos estar longe, definitivamente." O presidente do PSDB, Tasso Jereissati, que manteve longa conversa com Lula há pouco, mesmo cuidadoso, também avança ao dizer que acha não só possível como provável "que estejamos juntos no futuro". Mas observa que antes as feridas terão que ser curadas. E justifica a aproximação ao dizer "que o PT hoje é social-democrata."

A história política recente mostra muitos casos de diálogo e aproximação política entre adversários em torno de uma causa comum. A sucessão presidencial de 1985 assegurou a eleição de um civil graças à aliança entre PMDB e uma expressiva dissidência do PDS, então adversários políticos. A chapa liderada por Tancredo Neves trouxe um antigo adversário, o ex-presidente do PDS, José Sarney, como vice. Remotamente, outros registros existem e, entre eles, uma frente reunindo Carlos Lacerda, João Goulart e Juscelino. Verdade é que as circunstâncias eram diferentes e tinham a ver com a volta do país ao Estado de Direito. Serve, porém, para demonstrar que um entendimento político entre adversários tendo como elo um projeto nacional e uma causa comum é possível.

E, ressalte-se, que o poder nunca deixou de exercer seu fascínio. O ex-presidente Vargas era mestre nesse tipo de ação política.

De qualquer maneira, ainda que lentamente, as bases estão sendo lançadas. No PSDB, existem resistências especialmente de Fernando Henrique, cujo governo foi o alvo principal de Lula e do PT no segundo turno da campanha presidencial, principalmente no ataque às privatizações. Em meio ao tiroteio de CPIs, denúncias e cobranças, Lula buscou uma estratégia mais agressiva no turno decisivo e optou por atingir o antecessor, elegendo seu governo como alvo. Um lance político-eleitoral, mas que deixou marcas no ex-presidente, talvez a maior incógnita hoje a um entendimento, apesar de suas relações históricas com Lula e a quem abriu o governo na fase de transição em novembro e dezembro de 2002.

Para quem teme evoluções na política externa, especialmente no continente, os sinais de uma nova construção na política interna é um dado que permite conjecturar. Além de influir na política externa, a aproximação seria capaz, também, de reduzir as especulações em torno de nova reeleição, tema vivo nos bastidores. Se ao governo interessa ampliar sua base de apoio de forma sólida é possível que aos líderes do PSDB o aprofundamento desses cenários também lhes convenha, mais do que se pensa.

Em circunstâncias piores o partido chegou a admitir sua participação no governo Collor. O próprio Tasso e Fernando Henrique foram convidados formalmente para integrar o ministério na fase aguda da crise. E só não assumiram porque a Executiva Nacional, liderada por Mário Covas, se opôs. Ele enfrentara Collor anos antes na campanha presidencial e tinha opinião formada sobre ele. Agora, Fernando Henrique parece desempenhar aquela tarefa de Covas. E como ele, também teve no atual presidente um adversário em campanha eleitoral, por duas vezes.. E resiste às negociações com o Planalto.

Até o congresso do PSDB no segundo semestre, porém, não haverá novidade. Ele deverá ocorrer às vésperas das eleições municipais que também constituem um desafio para os tucanos. Afinal com que discurso, no caso de adesão, se apresentariam, logo depois, diante do eleitorado? O espaço que parecia reservado a eles já está ocupado pelo PMDB?

Ao seu aliado dos últimos tempos, o ex-PFL, o DEM, ainda resta a tarefa historicamente desempenhada pela UDN, a de oposição minoritária, mas combativa. A grande indagação sobre o futuro quadro político, coloca o PSDB numa certa encruzilhada. É este desafio que suas lideranças e aliados começam a enfrentar.

No DEM, por exemplo, as reações já existem. O presidente do Partido, Rodrigo Maia, acha que quando se atira para todo o lado, perde-se a nitidez. "Fica no jogo do morde e assopra, o que só confunde." Um sinal a mais de que a estratégia tucana, por mais estudada que seja, enfrentará reações em várias frentes, daí as muitas cautelas que parecem cercá-la e tendem a protelar uma decisão.

Carlos Fehlberg

Fonte: Política para Políticos



Menu
 

Copyrigth 2006 - 2008 Servidor Público.net
Este site foi desenvolvido pela Simples Consultoria utilizando o Plone.