O dólar ladeira abaixo
Mas o que importa? Ao longo da última década, um jornalismo financeiro preguiçoso, contemporizador, pouco preocupado com a qualidade das fontes, permitiu que um mesmo grupo de economistas e operadores errasse nas previsões. Esse mesmo pessoal ignorou a crise do México, um mês antes de ocorrer; a quebra da Argentina, uma semana antes; o fim da política cambial brasileira em 1999, até uma semana antes; os desdobramentos da eleição de Lula em 2002.
Quando o dólar baixou de R$ 2,00, Natan Blanche, operador e principal sócio da Tendências Consultoria, vaticinou: “Vai ficar ali por volta de R$ 1,96”. Sua previsão foi derrubada alguns dias depois. Ontem o dólar baixou para R$ 1,928.
Mas o que importa? Ao longo da última década, um jornalismo financeiro preguiçoso, contemporizador, pouco preocupado com a qualidade das fontes, permitiu que um mesmo grupo de economistas e operadores errasse nas previsões. Esse mesmo pessoal ignorou a crise do México, um mês antes de ocorrer; a quebra da Argentina, uma semana antes; o fim da política cambial brasileira em 1999, até uma semana antes; os desdobramentos da eleição de Lula em 2002.
Pouco importa se os leitores foram mal informados, se empresários quebraram acreditando em suas miragens, se a opinião pública foi iludida com a estratégia das expectativas sucessivas – todo início de ano, promessas de se alcançar o paraíso, que eram desmentidas no final do ano e renovadas para o ano seguinte.
***
Ontem, no evento da Tendências Consultoria sobre a economia, o grande economista Antonio Palocci decretou: “Quando os mercados percebem que o governo quer fazer algo, o nível de aposta dobra", O máximo que o país poderá fazer será “fortalecer e garantir os instrumentos e a musculatura da política econômica brasileira”. "Fora disso, não me agrada."
Sequer tangenciou a questão do diferencial de juros entre a taxa Selic e a remuneração dos títulos brasileiros no exterior, tema que deixou de ser tabu no próprio mercado. “Não me agrada”, e pronto.
***
A superficialidade da discussão econômica consagrou essas expressões, em geral utilizadas para reforçar opiniões vazias. O “não me agrada” é uma delas. O “tenho a convicção” é outra.
Não se trata meramente de implicância com termos utilizados. Trata-se de instrumentos de retórica eficazes, em cima de uma cobertura econômica pouco preparada, e uma opinião pública – incluída ai os empresários desinformados, muitos deles vítimas da política econômica – que se condicionaram com a história da “lição de casa”, de que o câmbio é dado pelo mercado, sem nenhuma espécie de interferência.
***
Os efeitos dessa tragédia aparecerão um pouco agora, muito depois. Dia após dia, será reduzido o componente de valor agregado na produção nacional. Algumas empresas morrerão. Para sobreviverem, outras estarão cada vez mais importando peças e componentes prontos. Ou então se instalando em outros países. Em vez de exportar produtos, o país será cada vez mais exportador de empresas, de empregos e de empresários.
***
O trágico nessa história é que a redução desse valor agregado (o componente que uma empresa agrega aos insumos que adquire para fabricar determinado produto) tem impacto direto sobre a qualidade do emprego. Não apenas do peão, mas, principalmente, dos quadros técnicos.
Hoje em dia, há uma multidão de jovens formados morando com os pais, sem perspectiva de um bom emprego. A maioria deles, e seus pais, não conseguem entender que há uma relação direta com o câmbio.
Pensa-se apenas na próxima viagem internacional e no próximo vinho. E não se percebe que o navio já foi abalroado.
Cenários – 1
Maílson da Nóbrega, que errou na previsão de todos os episódios econômicos relevantes da última década, trabalha com três cenários para a economia brasileira. O “otimista”, com 15% de chance de ocorrer. O pessimista, com mais 15%, e que consistira na atuação política do Banco Central, erros na negociação do endividamento de Estados e municípios, volta da inflação e queda do potencial de crescimento.
Cenários – 2
O cenário com maior probabilidade de ocorrer, segundo Maílson, é que prevê gestão macroeconômica responsável com inflação sob controle, porém, com baixo índice reformista e até mesmo mediocridade em algumas áreas de atuação. Maílson inclui no cenário até o Banco do Sul, “uma solução desastrosa, sem justificativas e contraria os interesses do País". O tal banco não tem o menor impacto sobre política econômica.
Cenários – 3
A técnica da embromação na definição de cenários é fantástica. Hoje em dia há uma enorme divergência de opinião sobre a situação internacional. Até Alan Greenspan diagnostica crise na China, enquanto outros economistas sustentam que não atrapalhará o crescimento mundial. São episódios que alteram completamente o cenário interno. Como é possível traçar cenários que não levem em conta o quadro internacional? Mas a grande mídia aceita.
Tesouro – 1
Descontados todos os exageros da cobertura da Operação Navalha, é preocupante a informação de que lobistas atuavam na Secretaria do Tesouro Nacional. O contingenciamento de verbas acabou conferindo um poder discricionário enorme à Secretaria. Cabe a ela definir cortes, suspensão de pagamentos. E sempre de forma discricionária, porque tornou-se pecado investir contra seus critérios. E agora?
Tesouro – 2
O período em que a tesoura do STN foi mais arbitrária e violenta foi na gestão Antonio Palocci no Ministério da Fazenda. As técnicas do Ministério e da STN foram denunciadas pela Ministra Dilma Rousseff em reunião ministerial com Lula, logo que assumiu o cargo. Não havia suspeitas em relação a liberações, mas aos métodos para ampliar os cortes e desarrumar a política de gastos dos ministérios.
IBGE
Última pesquisa IBGE: No período de 1996 a 2005 houve redução de importância da atividade industrial em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Os que ganharam foram Bahia (refino de petróleo e produção de álcool e veículos), Rio de Janeiro (indústria extrativa), Minas Gerais (indústria extrativa), Espírito Santo (indústria extrativa), Paraná (refino de petróleo e produção de álcool) e Mato Grosso (alimentos).
Fonte: Boletim Luís Nassif Online
Salas com mais de 40 alunos poderão ter microfones