Ações do documento

Vavá usou nome de Lula para obter dinheiro, diz PF

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:12 Jornal Folha de S. Paulo/SP


Gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal indicam que o aposentado Genival Inácio da Silva, o Vavá, usou o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu irmão, para obter recursos do empresário de bingos Nilton Cezar Servo, preso pela Operação Xeque-Mate, desencadeada pela PF de Mato Grosso do Sul no início desta semana.

Gravações mostram que irmão do presidente ofereceu lobby a empresário de bingo

Em diálogos gravados pela PF, Vavá tenta se mostrar influente; não há indício de que ele tenha conseguido executar o lobby prometido

HUDSON CORRÊA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE

RUBENS VALENTE
ENVIADO ESPECIAL A CAMPO GRANDE

Gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal indicam que o aposentado Genival Inácio da Silva, o Vavá, usou o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu irmão, para obter recursos do empresário de bingos Nilton Cezar Servo, preso pela Operação Xeque-Mate, desencadeada pela PF de Mato Grosso do Sul no início desta semana.
No conjunto de 617 interceptações que integram o inquérito que corre na 5ª Vara Federal de Campo Grande, às quais a Folha teve acesso, a voz de Vavá consta de 16 diálogos. Indiciado por supostos tráfico de influência e exploração de prestígio, ele aparece pedindo dinheiro a Servo e oferecendo lobby a um grupo agropecuário de Assis (SP) interessado em reverter uma decisão desfavorável no STJ (Superior Tribunal de Justiça). O telefone fixo da casa de Vavá, em São Bernardo do Campo, foi monitorado com autorização judicial.
Numa interceptação às 19h45 de 25 de março passado, um domingo, Vavá diz ao empresário que Lula esteve naquele dia em sua casa, em São Bernardo, por cerca de uma hora e meia. Lula passou aquele final de semana em sua residência, em São Bernardo, sem agenda oficial. "Eu falei pra ele sobre o negócio das máquinas lá. Ele [Lula] disse que só precisa andar mais rápido, né, bicho", relatou Vavá, que repete: "E eu falei com ele sobre o negócio das máquinas, né. Falou para mim pegar o rela... [inaudível] levar pra ele lá. Tá bom?".
Servo insinua ser próximo do presidente: "O Lula é meu irmão". Vavá demonstra entusiasmo com oportunidades que poderiam ocorrer dali para frente. "Precisa andar mais rápido com esse negócio das máquinas, viu. (...) Tem muito serviço agora", diz Vavá.
O relatório da PF sobre o teor dessa conversa é taxativo: "A análise da conversa indica que Vavá está usando o nome de seu irmão, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para conseguir dinheiro junto a Nilton Cezar Servo, contraventor que tem como principal fonte de renda a exploração do jogo de azar através de máquinas caça-níqueis em diversos Estados da Federação, tais como Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo e Rondônia".
Não aparece indício no relatório de que o lobby prometido por Vavá tenha sido de fato realizado. Na parte do inquérito à qual Folha teve acesso existe uma gravação, feita dois meses após esse diálogo, em que Vavá conversa com um advogado. Nesse diálogo, o interlocutor de Vavá indica que o presidente saberia das movimentações do irmão em Brasília.
Ainda segundo esse diálogo, Lula estaria contrariado com as atitudes do irmão e teria orientado um emissário da região do ABC a chamar Vavá para uma reunião com o presidente, em Brasília, para um puxão de orelhas.
A conversa ocorreu num período em que Vavá aparece nos telefonemas gravados fazendo inúmeros pedidos de dinheiro a Servo. "Ô, arruma dois pau pra eu?", disse Vavá ao empresário no dia 22 de março, três dias antes da suposta visita do presidente a sua casa.
Servo alegou que estava sem dinheiro naquele momento, mas pediu para Vavá telefonar dali a quatro dias. "Mas tem muita coisa pra ser feita, viu?", prometeu Vavá.
Dias antes, em 11 de março, novamente Vavá pediu dinheiro a Servo, R$ 5 mil, segundo a PF. "Põe uns cinco, tá bom?", pede o aposentado. Dois dias depois do pedido, Servo informa a Vavá sobre o pagamento: "Meu cunhado tá em São Paulo, eu pedi pra ele, meu cunhado, Serra, pra entregar pessoalmente aquele negócio. Falo com você amanhã, então. (...) Amanhã ele vai te entregar pessoalmente aquilo que eu fiquei de colocar [no banco]".

Irmão levaria bronca em Brasília, indica grampo

DO ENVIADO A CAMPO GRANDE
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE

Um diálogo captado pela Operação Xeque-Mate, da PF, indica que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou um emissário ao seu irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá, para chamá-lo a um encontro reservado em Brasília, onde haveria uma "bronca". O motivo seriam as visitas de Vavá a "ministérios de Brasília", nas quais estaria apresentando "uma pessoa".
O emissário da mensagem a Vavá foi identificado apenas como "Roberto". Seu telefone, um aparelho fixo, tem como endereço na lista telefônica uma casa na rua Sílvia, em São Caetano do Sul (Grande SP), na região do ABC Paulista. Ninguém atendeu o aparelho ontem à tarde.
A conversa ocorreu no último dia 20 de maio. Roberto pediu para se encontrar com Vavá "fora de casa". Vavá disse estar com a agenda cheia, e que na sexta seguinte iria a Brasília. A notícia desagradou o interlocutor. Diz haver uma "bronca" contra o irmão de Lula.
"Quero conversar sobre isso mesmo, cara. (...) Não vai sem falar comigo, não, porque tem, tem, uma bronca da porra", disse Roberto, que nesse ponto aparentou falar em nome do presidente: "O Lula quer que você vá lá, ouvi-lo à noite, pra conversar com ele à noite".
O interlocutor frisa a necessidade de Vavá ir sozinho falar com o presidente. "Então eu quero ver com você direito isso. Quando é que você quer ir, mas você [sozinho]. Ele quer que eu vá com você, mas se você for sozinho, ele também... Tá? Quer conversar na casa dele, tranqüilo, tá? Então vamos pensar num dia aí."
Ao longo do diálogo, Vavá evita comentar as frases de Roberto. No final, impaciente com a hesitação de Vavá, Roberto acabou dando mais detalhes sobre o problema: "Vavá, eu quero saber, Vavá, porque tem uma bronca lá, que você anda apresentando uma pessoa lá nos ministérios e ele..."
Nesse ponto, Vavá interrompeu a conversa, que logo depois foi encerrada: "Eu?".
O relatório parcial da PF sobre esse diálogo o relaciona às supostas atividades de lobby de Vavá: "Neste diálogo o tal Roberto diz que o presidente de República Luiz Inácio Lula da Silva quer conversar pessoalmente com Genival Inácio da Silva, vulgo Vavá, em sua casa na Granja do Torto em Brasília/DF. Roberto comenta que Vavá "anda apresentando uma pessoa no ministério", referindo-se às suas atividades de 'lobista"." A íntegra do áudio revela que Roberto usou a palavra ministério no plural. (RV E HC)

Vavá oferecia lobby no Judiciário

Segundo gravações da PF, ele participou de reuniões com empresários para reverter decisão do STJ

Nilton Servo pediu para o seu irmão Nivaldo acompanhar as negociações, pois Vavá iria pedir "valor baixo"

DO ENVIADO A CAMPO GRANDE
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE

Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ofereceu serviços de lobby no Judiciário, segundo escutas telefônicas da Polícia Federal na Operação Xeque-Mate.
Vavá participou de reuniões em São Bernardo do Campo e Brasília com agropecuaristas para tentar reverter decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça). A investigação aponta que essas reuniões aconteceram no segundo semestre de março, com os empresários identificados como "André" e "Jairo". Eles haviam perdido, em segunda instância, ação estimada em R$ 6 milhões contra a usina de cana-de-açúcar Maracaí, no município paulista de mesmo nome.
Vavá foi orientado a se encontrar com os agropecuaristas por Nilton Cezar Servo. Após perderem a ação, os agropecuaristas procuraram Servo. Alegaram que a decisão foi "negociada", segundo expressão que "André" usou.
A partir daí, Servo pediu a ajuda de seu irmão, Nivaldo. A idéia era acompanhar Vavá em Brasília para que pudessem obter algum ganho no negócio.
Numa conversa com Nivaldo, Nilton contou que a idéia de prestar serviços de lobby no processo partiu do próprio Vavá. Segundo Nilton, Vavá tinha um advogado "do esquema", cujo nome não é revelado.
"Eu só quero que acompanhe. Porque o que que vai acontecer. Depois que der certo, o Vavá, tonto, [vai dizer] ah, me dá R$ 10 mil, R$ 20 mil, R$ 5 mil. A conta é um negócio de R$ 1 milhão", descreveu Nilton ao seu irmão, Nivaldo.
Os dados conhecidos até aqui sobre a operação da PF não esclarecem se Vavá teve sucesso. Mas a promessa de interferência na decisão, segundo entendeu a PF e o Ministério Público Federal, levou a polícia a indiciar Vavá pelo suposto crime de exploração de prestígio.
André, o empresário que teria se reunido com Vavá em março, foi localizado ontem pela Folha no mesmo telefone celular com prefixo 018 que foi interceptado pela PF em conversas com Servo. Ele ouviu em silêncio por dois ou três minutos as afirmações da reportagem sobre a investigação policial e, então, afirmou: "Eu não tenho nada a declarar".
Indagado sobre a reunião em Brasília, André não negou nem confirmou. Sobre possível disputa judicial com a Usina Maracaí, alvo do lobby detectado nas escutas, André disse que "não tem nada disso aí, não". (RUBENS VALENTE E HUDSON CORRÊA)



Menu
 

Copyrigth 2006 - 2008 Servidor Público.net
Este site foi desenvolvido pela Simples Consultoria utilizando o Plone.