Um câncer chamado nepotismo
Ao contar as maravilhas da nova terra, ao final de sua missiva, Caminha pede um favor ao Rei: "E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê".
Os dois casos mais recentes da bandalheira tupiniquim remetem ao nascedouro desta Pátria. Para quem não se lembra, o nepotismo começou no Brasil com sua certidão de nascimento, "A Carta" escrita por Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal, D. Manuel.
Ao contar as maravilhas da nova terra, ao final de sua missiva, Caminha pede um favor ao Rei: "E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que d'Ela receberei em muita mercê".
Esse foi o primeiro exemplo clássico de nepotismo que viria ser assunto corriqueiro no Brasil. Pesquisando pela Web, nepotismo significa, de forma simplista, a concessão de empregos ou favores públicos a familiares mais próximos de um governante ou alto funcionário.
Sua etimologia vem da raiz indo-européia ´nepot-´, que significava tanto neto quanto sobrinho, uma ambigüidade que se transmitiu ao latim, língua na qual ´nepos, nepotis´ também significava neto e sobrinho. Nas fontes medievais mais antigas da nossa língua, encontra-se indistintamente ´nieto´e ´nepto´ Em português e em espanhol, a superveniência de ´sobrinus´ permitiu que aquela
palavra apurasse o seu sentido para significar apenas os filhos dos filhos,
enquanto que em francês ´neveu´ e ´nièce´ significam apenas sobrinho e em inglês a palavra latina derivou para ´nephew´, também como sobrinho. A mesma raiz indo-européia derivou-se para o sânscrito ´napat´ (neto), enquanto que com o significado de sobrinho formaram-se a voz grega ´anepsiós´, a alemã ´neffe´ e a holandesa ´neef´.
A palavra nepotismo formou-se nos primeiros séculos do cristianismo, quando alguns papas, que não tinham filhos ou não admitiam tê-los, concediam os melhores empregos e os favores do Estado a seus sobrinhos, que freqüentemente eram na realidade seus filhos ilegítimos.
Mas diferente do pensamento comum, o nepotismo não grassa apenas no funcionalismo público ou nos cargos públicos. Claro que seu uso corriqueiro por políticos que resolvem fazer benesses com o dinheiro público ganham as páginas dos jornais. Nomeiam-se parentes de primeiro, segundo, terceiro, décimo graus e, normalmente, as pessoas agraciadas com tal júbilo, nem sempre (quase nunca) merecem o cargo que exercem com elevados salários.
Conheço organizações privadas que também abusam da prática do nepotismo. É lamentável e pernicioso quando se olha para uma empresa que, facilmente, torna-se possível traçar árvores genealógicas. Dá para perceber que não se trata de uma empresa séria. O empreguismo de parentes torna as relações mais íntimas e perde-se em profissionalismo.
Há outros casos considerados mais nobres, quando o sobrenome torna-se grife. Esta prática é comum na Imprensa. O nepotismo na Mídia é mais podre que o uso desse modus operandi por nossos políticos e/ou administradores. Olhamos para a comunicação no Brasil e vimos que o poder está nas mãos das família X, Y ou Z, ao longo dos anos e décadas. Óbvio que esta família tem interesses diversos que podem, e normalmente maculam ou distorcem as informações quando tais interesses são contrariados. A questão longeva do diploma de jornalista que, de liminar em liminar, ora é obrigatório, ora não, explica-se, em grande parte, pelo silêncio da chamada grande mídia. Certa vez, conversando com um jornalista famoso, ele foi claro. Disse-me que "não existia interesse na cúpula da mídia nacional, a obrigatoriedade do diploma". Para ele, "além de facilitar a parentada, derrubava os salários, entre outras coisas".
Curiosas são as explicações. Há políticos a afirmar que seus apaniguados são pessoas de excelente formação e que são capazes de exercerem a função. Há os caras-de-pau que dizem que não querem problemas familiares. Há ainda os que brincam com a inteligência alheia. Dizem que procuravam determinadas características para o cargo e que, coincidência das coincidências, a pessoa escolhida era seu parente ou indicado pelos asseclas de plantão.
Tento imaginar se os beneficiados, quando falam com seus travesseiros, não pensam quão mesquinhos são. É um dilema. Por mais capacitado ou competente que a pessoa seja, diga-se de passagem, raras exceções, ela sempre carecerá da falta de identidade. Sempre hão de afirmar que lá estão por causa de apadrinhamento. Se for um caso de grife, a pessoa sempre será filha de fulano ou ciclano... Será que pensam? Tenho dúvidas!
Enfim, o caso do irmão do presidente Lula, envolvido com supostas cobranças de propinas não é um nepotismo direto, mas da versão mais comezinha. Aquela do "sabe com quem tá falando?" É a grife, a que me referi. Ele não é o Vavá, e sim, o irmão de Lula², coincidentemente, presidente do Brasil. Sobre a filha extra-conjugal de Renan Calheiros é um descaramento completo. Não cabe a mim opinar sobre sua pulada de cerca, porque todos temos defeitos e erros. Mas errar e pagar com grana desviada do país, é o cúmulo do fim-do-mundo. Ele fez a filha para a pátria que a pariu criar.
Para finalizar só uma coisa. Antes que os defensores do atual governo saiam desfraldando bandeiras ao afirmar que nunca a Polícia Federal investigou tanto e, parodiando Lula², nunca antes nesse país, prendeu-se tanta gente, assertiva com a qual concordo, só um detalhe: de escândalo em escândalo, pessoas muito próximas ao poder e ao presidente da res publica foram capturadas. De peladeiro a churrasqueiro. De pagador de contas a irmão. Isso sem falar no chamado "núcleo duro" do primeiro mandato que desabou, exatos dois anos com o escândalo do mensalão. Lula² pode continuar não sabendo de nada. E se assim for, ele passará à história como o "marido traído" de nossa democracia imberbe.
Sylvio Micelli
9 VI 2007
Este e outros textos você encontra no Blog Arte Fato: http://micelli.spaces.live.com
Visite o portal ServidorPúblico.Net: http://www.servidorpublico.net
Câmara e Senado fecham acordo sobre regra para MPs