CRISE NO SENADO: Vento vira contra Renan
Mesmo contrariado, o relator da matéria, senador Epitácio Cafeteira (PTB-BA), acabou aceitando o pedido de adiamento da votação do relatório para terça-feira. A proposta partiu do PSDB, do DEM e PSOL, com apoio de senadores do PT e PSB. Este novo prazo, segundo o líder tucano no Senado, Artur Virgílio neto (AM), é necessário para que os documentos colocados em xeque pela matéria veiculada quinta-feira sejam periciados para comprovar-lhes a autenticidade.
Votação de relatório que arquivaria representação contra Renan fica para terça-feira. Senadores agora não têm tanta boa vontade
Manuela Borges
Enquanto na quinta-feira muitos parlamentares apostavam na absolvição de Renan Calheiros – que seria votada na reunião de ontem do Conselho de Ética – novos fatos apresentados pela reportagem do Jornal Nacional complicaram a vida do presidente do Senado e deram rumos incômodos às investigações do Conselho de Ética.
Mesmo contrariado, o relator da matéria, senador Epitácio Cafeteira (PTB-BA), acabou aceitando o pedido de adiamento da votação do relatório para terça-feira. A proposta partiu do PSDB, do DEM e PSOL, com apoio de senadores do PT e PSB. Este novo prazo, segundo o líder tucano no Senado, Artur Virgílio neto (AM), é necessário para que os documentos colocados em xeque pela matéria veiculada quinta-feira sejam periciados para comprovar-lhes a autenticidade.
Segundo a reportagem, muitas das notas apresentados por Renan para comprovar rendimentos com a venda de gado são atribuídas a empresas inativas e multadas por extravio de documentos fiscais. Algumas destas firmas, de acordo com a matéria, chegaram a negar qualquer tipo de envolvimento financeiro com o presidente do Senado.
Renan, por sua vez, tentou rebater a reportagem dizendo-se envolvido por um esquema fraudulento de notas, que seria chefiado peo frigorífico Mafrial. Ele está sendo investigado pelo Conselho de Ética da Casa por supostamente utilizar o lobista Cláudio Gontijo, da Construtora Mendes Júnior, como financiador das despesas de pensão e aluguel da jornalista Mônica Veloso, com quem o senador tem uma filha de três anos.
Tudo como dantes
Antes de estourar a notícia de que as notas apresentadas por Renan eram "frias", o que prevalecia – e contava com apoio quase absoluto dos senadores – era o relatório de Cafeteira, que pede o arquivamento da representação do PSOL contra o senador, que verificaria se houve ou não quebra de decoro parlamentar. Embora as novas denúncias tenham dado um novo fôlego ao Conselho, o relator da matéria já adiantou que não irá mudar nem uma linha do relatório.
Além de adiar a votação, o Conselho de Ética decidiu ontem que todo material apresentado por Renan deve ser periciado. A assessoria do presidente do Conselho, Sibá Machado (PT-AC), divulgou que um técnico da Polícia Federal e integrantes da Secretaria de Controle Interno do Senado farão a análise dos documentos para verificar-lhes a autenticidade.
"Quero que o trabalho seja iniciado ainda este fim de semana para que na manhã de terça-feira já tenhamos o laudo dos peritos", afirmou Sibá.
O Conselho também decidiu que vai ouvir novos depoimentos. Segunda-feira, Cláudio Gontijo prestará esclarecimentos. Depois, será a vez do advogado de Mônica Veloso, Pedro Calmon Mendes.
No meio do fogo cruzado
O presidente do Senado, Renan Calheiros, apresentou ontem aos integrantes do Conselho de Ética novos documentos e deixou a Casa antes mesmo de inicada a reunião do Conselho de Ética. "Estou trazendo a certeza de todos os documentos apresentados por mim", disse, lacônicamente.
O líder do Governo, Romero Jucá (PMDB-RR), saiu logo em defesa de Renan. "O presidente do Senado é o maior interessado em esclarecer tudo isso. Ele apresentou mais documentos. Mas é preciso ficar claro de que a perícia tem de ser em cima da autenticidade dos documentos e não com relação à contabilidade. Uma perícia contábil leva mais tempo e tira de foco o que está sendo questionado, que é a veracidade das notas e recibos".
Já o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) defende a perícia contábil de toda a documentação. "Verificar apenas a autenticidade dos documentos pode ser pouco. É preciso fazer a contabilidade das operações para ver se batem e, a partir daí, investigar se houve movimentações ilegais". O senador acredita que a única saída honrosa para o presidente Renan é ele conseguir provar sua inocência.
Pouco a acrescentar
Para o senador Renato Casagrande (PSB-ES), a perícia é o único instrumento que pode confirmar a idoneidade dos documentos apresentados por Calheiros. Para ele, depoimentos acrescentam pouco. "Não acho necessário interrogar a Mônica Veloso. O que é importante agora é a análise criteriosa dos extratos. Se ficar constatado que alguma das notas é realmente fria, aí sim, isto será um problema para Renan", enfatizou.
Segundo ele, caso a perícia demonstre que os documentos foram forjados, Renan deverá ser chamado para esclarecer os fatos no Conselho de Ética.
Para Artur Virgílio Neto (PSDB-AM), os senadores não estão agindo com corporativismo. "Pedimos a perícia e novos depoimentos. Tudo tem de ficar bem esclarecido antes de nos posicionarmos".
Senador nega ter feito pressão
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que apresentou aos senadores na manhã de ontem, em reuniões informais, documentos que comprovam que não utilizou notas frias para comprovar que utilizou recursos próprios para pagar pensão e aluguel para a jornalista Mônica Veloso – com quem tem uma filha.
Reportagem de quinta-feira à noite do Jornal Nacional colocou em dúvida o lucro obtido por Renan com a venda de gado de suas fazendas de Alagoas. Afinal, algumas empresas que emitiram notas fiscais simplesmente não existiam fisicamente, bem como alguns negócios mostravam enorme discrepância entre o tamanho da venda e a capacidade do comprador.
O presidente do Senado usou essa lucratividade para comprovar que tinha renda compatível para realizar os pagamentos à Mônica.
Renan disse que não visitou os senadores com o objetivo de influenciá-los na votação do processo por quebra de decoro parlamentar na sessão do Conselho de Ética.
"Fiz questão de fazer visita a todos os senadores não para formar a cabeça, mas para trazer a verdade. Eu não estou pedindo o direito da dúvida, mas trazendo a certeza da verdade".
Ele encaminhou aos senadores recibos, notas de vacinação do seu rebanho, cheques depositados na conta de compradores de gado, além de comprovantes de venda de bois em Alagoas.
Apesar das provas, Renan disse que não quer influenciar o Conselho. "Não vou entrar na discussão da mesma maneira que não vou entrar na discussão da ética do jornalismo".
Jornal de Brasília/DF
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