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Identidades perdidas

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:29 Agência Diap


A desconstrução da identidade dos partidos, em primeiro lugar, é uma crise de imagem provocada por escândalos sucessivos. Os exemplos são quase diários. Ontem mesmo, ao ser apresentado o relatório do senador Epitácio Cafeteira (PTB/MA) sobre o caso do presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB/AL), no Conselho de Ética do Senado, tivemos um bom exemplo de como esse desgaste ocorre. Porém, tais fatos — que estão na esfera da pequena política — decorrem de causas mais profundas.

Por: Luiz Carlos Azedo*

A desconstrução da identidade dos partidos, em primeiro lugar, é uma crise de imagem provocada por escândalos sucessivos. Os exemplos são quase diários. Ontem mesmo, ao ser apresentado o relatório do senador Epitácio Cafeteira (PTB/MA) sobre o caso do presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB/AL), no Conselho de Ética do Senado, tivemos um bom exemplo de como esse desgaste ocorre. Porém, tais fatos — que estão na esfera da pequena política — decorrem de causas mais profundas.

 

Não é só a velha política brasileira, patrimonialista e clientelista, que se reproduz pelo nepotismo, que está esgotada. Também estão em xeque os paradigmas que distinguiam os liberais e os conservadores, os reformistas e os revolucionários, a direita e a esquerda. Os partidos são vistos por prismas em pedaços, como espelhos quebrados, o que complica ainda mais a reconstrução dos valores e projetos políticos.

 

Partidos fracos

Os partidos políticos no Brasil nunca tiveram a força de seus congêneres europeus ou norte-americanos. Nunca tiveram muito compromisso com os respectivos programas, pois seus políticos são prisioneiros dos interesses imediatos que representam. No Império, liberais e conservadores eram escravocratas em sua maioria e se uniram contra as reformas, com sua política de conciliação.

 

Os republicanos surgiram como a incipiente classe média, mas na República Velha representaram as oligarquias. Contra elas quem se insurgiu foi movimento tenentista, que desaguou na Revolução de 30.

 

A política partidária propriamente dita renasceu das cinzas em 1945 sob o signo da guerra fria. Foi com esse paradigma que os principais partidos políticos atuaram no Brasil até o golpe de 1964, que marcou o esgotamento de um ciclo político. O populismo havia assinalado a entrada em cena política dos trabalhadores assalariados, muito mais do que a fundação do Partido Comunista em 1922.

 

A democratização da vida nacional, com o restabelecimento das eleições diretas em todos os níveis, seria um fator de fortalecimento dos partidos junto à sociedade. Está acontecendo exatamente o contrário

 

Curiosamente, a aliança entre pessedistas, trabalhistas e comunistas na eleição de Juscelino Kubitschek proporcionou o melhor momento da Segunda República e um contraponto à influência póstuma de Getúlio Vargas.

 

A tentativa de implantar o bipartidarismo na marra, durante o regime militar, fracassou por dois motivos. O primeiro era óbvio: não havia liberdade. O segundo, perdura até hoje: a influência européia na política brasileira sempre foi maior do que a norte-americana, apesar da falta de assimetria com as nossas relações econômicas.

 

Com a fim da guerra fria, a crise dos partidos brasileiros se aprofundou. Muito mais em conseqüência das mudanças que ocorrem no mundo do que por causa do ambiente político interno. Em tese, a democratização da vida nacional, com o restabelecimento das eleições diretas em todos os níveis, seria um fator de fortalecimento dos partidos junto à sociedade. Está acontecendo exatamente o contrário.

 

Crise de identidade

Na verdade, a globalização dos mercados mudou o nexo das políticas nacionais em todo o mundo. O fim da União Soviética, a formação da União Européia, a emergência das potências asiáticas e o enfraquecimento de hegemonia econômica norte-americana, em que pese sua ação militar, contribuíram decisivamente para isso.

 

Além disso, a terceira revolução industrial e as reformas econômicas que provocou contribuíram para romper a identificação das massas trabalhadoras dos países industrializados com seus partidos tradicionais, o que gerou uma nova direita na Europa, populista e nacionalista.

 

O impacto dessas mudanças no Brasil ainda não foi suficientemente analisado, mas atinge em cheio os partidos. Ocorre, sobretudo na esfera da grande política. O efeito mais evidente é a blindagem da política econômica, que a rigor foi iniciada pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello com a abertura da economia.

 

Essa política se consolidou com o Plano Real no Governo Itamar Franco e ganhou força hegemônica nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, com um caráter social-liberal.

 

Ao ser encampada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atraiu para sua esfera o PT, a força política que poderia levar adiante um vigoroso reformismo democrático e social. Da mesma forma como antes a política econômica havia assimilado o projeto social-democrata do PSDB. O preço pago é a obstrução da renovação dos costumes políticos, o enfraquecimento e a descaracterização dos partidos.

 

(*) Jornalista do Correio Braziliense;

texto publicado originalmente no veículo em 14/06/07



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