País prossegue com pé no freio
Nos últimos anos, fatores de risco à estabilidade global foram, em grande medida, neutralizados pelo impetuoso dinamismo da demanda chinesa. Dentre esses, pode-se destacar a escalada do preço internacional do petróleo, a bolha imobiliária nos EUA, os déficits gêmeos da economia norte-americana e o temor de eventual superaquecimento da economia chinesa. Esses fatores não foram totalmente anulados, mas a dimensão de risco associada a eles é hoje muito menor do que a de tempos atrás.
Por Marcel Pereira
http://marcelpereira.blogspot.com/
Câmbio é a ameaça no caminho de melhora da economia*
O Brasil se acomodou com a excessiva fartura de liquidez global e colocou o pé no freio no processo de ajuste de seus desequilíbrios macroeconômicos. No futuro, pagará o preço por este relapso.
Sabe-se que a dinâmica econômica possui ciclos, cuja extensão e intensidade dependem de diversos fatos impostos pela história. Logo, o ciclo atual de prosperidade não é, evidentemente, perpétuo. O problema – mais uma vez – é a inexistência de instrumento capaz de prever quando este movimento pujante será contido.
Nos últimos anos, fatores de risco à estabilidade global foram, em grande medida, neutralizados pelo impetuoso dinamismo da demanda chinesa. Dentre esses, pode-se destacar a escalada do preço internacional do petróleo, a bolha imobiliária nos EUA, os déficits gêmeos da economia norte-americana e o temor de eventual superaquecimento da economia chinesa. Esses fatores não foram totalmente anulados, mas a dimensão de risco associada a eles é hoje muito menor do que a de tempos atrás.
Quem deu o alerta sobre o “risco da vez” foi o ex-chairman do Federal Reserve, Alan Greenspan: “O pujante crescimento mundial é insustentável, não tem precedentes na história e não tem como durar. O “boom” da Bolsa da China em algum momento terá uma contração dramática”. Ele deu o alerta: no longo prazo, em um momento impossível de se prever, haverá forte ajuste da liquidez, com contração drástica dos preços dos ativos.
Nos últimos dois anos, a Bolsa de Valores de Xangai teve valorização de quase 300%, tendo seu índice saltado do patamar de 1.200 pontos para mais de 4.000 pontos. Um estouro dessa bolha pode levar à desaceleração do crescimento da economia chinesa, contração da sua demanda por produtos importados e contenção da expansão global. A própria Olimpíada de Pequim, a ser realizada na metade de 2008, depois de realizada, tem potencial para ser um eventual gatilho dessa retração.
Estará o Brasil preparado para uma eventual reversão da liquidez internacional? É claro que sua vulnerabilidade externa diminuiu muito nos últimos anos. Afinal, o risco-país do Brasil, medido pelo JP Morgan, foi o que mais se reduziu entre os mercados emergentes. Só em 2007, teve queda acumulada de cerca de 30%. Além disso, as reservas internacionais estão no pico histórico - superando US$ 140 bilhões – o que lhe proporciona um respeitável colchão de liquidez. Já não estamos mais tão desprotegidos como em “outros carnavais”.
Houve uma expressiva melhora dos fundamentos macroeconômicos do Brasil, que já vislumbra, em horizonte não muito distante, a possibilidade de ingresso no grupo de economias classificadas como “grau de investimento”. Porém, isso, por si só, não lhe torna imune aos efeitos devastadores de uma crise global de liquidez.
A sobrevalorização do real é hoje um importante fator de risco ao país. A taxa de câmbio apreciada constitui obstáculo à melhora de sua posição nos mercados emergentes, já que resulta em sobrecarga de capitais especulativos no mercado doméstico. Se essa relação não for corrigida antes dessa inversão no quadro global, o Brasil poderá se colocar futuramente em situação bastante desconfortável.
Em um cenário de afluxo massivo de capitais, isso pode implicar desvalorização do real bem mais intensa do que de outras moedas emergentes, podendo o risco-país brasileiro perder a vantagem que tem sobre a média dos mercados emergentes. Ainda há tempo para corrigir a distorção no mercado cambial, porém, convém lembrar que o tempo do qual dispõe a autoridade econômica para fazer acertos sempre é breve.
* Título original do artigo de Marcel Pereira, economista da RC Consultores, no Rio de Janeiro.
Fonte: Via Política
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