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Porque desvalorizar o real

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:31 Boletim Luís Nassif Online


Anos atrás fui a um evento na Federação das Indústrias de Santa Catarina. Lá, foi apresentado o caso da Marisol, uma indústria têxtil catarinense que tinha montado uma rede de lojas em todo o Oriente Médio. Estava exportando seus produtos – roupas para crianças – e pensava em transformar as lojas em ponto de vendas de outros produtos brasileiros.

Anos atrás fui a um evento na Federação das Indústrias de Santa Catarina. Lá, foi apresentado o caso da Marisol, uma indústria têxtil catarinense que tinha montado uma rede de lojas em todo o Oriente Médio. Estava exportando seus produtos – roupas para crianças – e pensava em transformar as lojas em ponto de vendas de outros produtos brasileiros.

Ontem, li nos jornais que a Marisol fechou algumas fábricas, despediu 800 empregados e resolveu implantar um método Toyota de redução de custos. Não resistiu ao dólar barato, nem nas exportações nem no mercado interno. Provavelmente, vai continuar bolando produtos por aqui, mas terceirizar a produção para a China.

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O caso Marisol é emblemático da perda de rumo da economia brasileira. Há vários modos da economia crescer. Em um mundo globalizado, com as economias nacionais cada vez mais abertas, enfrenta-se uma competição cerrada com o exterior. Se uma empresa perde competitividade, é derrotada não apenas no mercado externo, como no interno.

Além disso, as empresas expostas à competição externa se constituem na vanguarda das inovações em qualquer economia. Elas puxam a inovação, a criatividade, os novos métodos de produção, a melhoria da qualidade.

Justamente por isso, todos os grandes movimentos de desenvolvimento modernos tiveram por base a competição no mercado externo. E, como primeiro passo, uma moeda competitiva. Isto é, um câmbio desvalorizado.

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Foi assim com a Alemanha, Itália e Japão no pós Guerra, com a Coréia nos anos 60, com a Itália nos anos 90, com a China. O câmbio desvalorizado serve para compensar as vulnerabilidades iniciais da economia. Não há infra-estrutura, o sistema tributário é inadequado, não há condições para investir em alta tecnologia? É a moeda desvalorizada que permite ao produtor interno colocar um produto lá fora tendo como vantagem o preço mais barato.

Em 2003, logo após a grande desvalorização cambial de 2002, centenas de pequenas empresas brasileiras passaram a competir com produtos com componentes tecnológicos, valendo-se do fator preço. Ofereciam quase a mesma coisa dos líderes de mercado a um preço muito menor.

Se a desvalorização cambial tivesse se mantido, elas aumentariam suas vendas, seus lucros. E, em um segundo momento, passariam a investir em mais tecnologia, inovação, galgando a escala de qualidade dos produtos globais.

Esse movimento – o mesmo que levou a Marisol a montar sua rede no Oriente Médio – foi abortada pela revalorização do real, promovida pelo governo Lula na gestão Antonio Palocci, e que prosseguiu na gestão Guido Mantega.

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Com a apreciação cambial, apenas os grandes grupos, que atuam em áreas de matéria-prima, conseguirão competir. O conjunto da economia perde. Todos os países que se desenvolveram – desde a Inglaterra, no início da Revolução Industrial – tinham por princípio importar matéria prima e exportar produtos acabados.

Agora, quando a crise ameaça corrigir os erros do câmbio, é bem provável que, passado o maremoto, o Banco Central volte a apreciar o real, dentro de sua missão pertinaz de matar o futuro.

Lula e o câmbio
 
O presidente Lula continua com visão torta sobre o câmbio. Ontem declarou que “o mercado vai tratar de regular esse dólar. Ele pode parar em R$ 2, pode chegar a R$ 2,10, pode ir para R$ 1,90, para R$ 2,15, para R$ 1,85, não tem problema, um dia ele vai parar", foi sua declaração inacreditável para um chefe de Estado. No fundo, apenas confirma que só um agravamento da crise tirará o real da sua rota de apreciação.

A crise americana – 1
 
A crise financeira está afetando dois setores em especial: o imobiliário e o financeiro. Estudo da Challenger, Gray and Christmas apurou, ontem, que desde 1o de agosto o setor financeiro Americano registrou 21 mil demissões, 11 mil das quais na última semana.

Dentre elas, 2.400 demissões no banco SunTrust e 8.640 das três grandes de crédito, First Magnus Financial, Countrywide e Capital On.

A crise americana – 2
 
Neste ano, o setor financeiro já demitiu 87.962 pessoas, mais que o dobro do que ocorreu nos sete primeiros meses de 2006, e mais que as 50.237 de todo o ano de 2006. Segundo os estudos, 41% das demissões foram diretamente provocadas pela crise de crédito no setor hipotecário. Mesmo assim, o total de empregos no setor financeiro aumentou de 8,5 milhões em julho deste ano contra 8,4 milhões em julho do ano passado.

A crise americana – 3
 
De acordo com a empresa RealtyTrac, nos sete primeiros meses de 2007, foram iniciados mais de 1,1 milhão de procedimentos de despejos nos Estados Unidos. Em quantidade, representa 60% de aumento em relação ao ano passado. Os despejos de inadimplentes alcançaram 179,6 mil no ano, aumento de 93% em relação a julho de 2006 e de 9% na comparação com junho. A média é de uma família em 693 perdendo a casa própria.

Crise americana – 4
 
O secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, afirmou ontem que a volatilidade nos mercados internacionais é uma “reprecificação do risco” sem reflexos mais graves sobre a economia global. Mesmo assim, acredita que os problemas nos mercados deverão, de alguma forma, afetar o crescimento mundial. Os problemas serão superados, mas levará algum tempo, segundo Paulson.

Os juros na China
 
O Banco Central da China elevou os juros básicos para empréstimo em 0,18% ao ano e para os depósitos em 0,27%. A intenção é conter a inflação que, em julho, atingiu o nível mais alto em dez anos. Os empréstimos passam a pagar 7,02% ao ano e os depósitos 3,6% ao ano. Segundo as autoridades chinesas, a medida busca "estabilizar as expectativas de inflação e ajustar a circulação do crédito de forma moderada".

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