Ted Boy Marino para presidente do Brasil
por Sylvio Micelli
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última modificação
10/02/2008 10:31
Sylvio Micelli / Portal ServidorPúblico.Net http://www.servidorpublico.net
Podemos traçar uma cronologia da política brasileira. Nos primeiros 430 anos passamos por governadores gerais, capitanias hereditárias - clássico exemplo de nepotismo oficial, reis, rainhas, príncipes, princesas, bobos-da-corte e todo um cabedal de servos a manter os senhores feudais, quaisquer que fossem eles. No final do século XIX tivemos a República, que em suas primeiras quatro décadas, impôs um regime de troca-troca, conhecido por "Política Café-com-Leite", a representar o poder econômico de São Paulo (café) e Minas Gerais (leite).
Sylvio Micelli
Para os menores de 25 anos, o calabrês Ted Boy Marino fez sucesso na TV como participante das disputas de luta-livre, conhecido como telecatch. As lutas fizeram sucesso no final dos anos 60 e ao longo dos 70, quando o Brasil tentava sobreviver ao regime militar. Os embates eram todos "de mentirinha", mas nossas mães preocupavam-se com a violência nos canais de TV. Nostálgicos dias aqueles, quando o vale-tudo na TV era apenas diversão.
Desde que o Brasil foi descoberto, o poder sempre esteve a serviço da manutenção da classe burguesa. Esta, detinha o dinheiro e subjugava a vassalagem composta por escravos, pobres, imigrantes, migrantes et caterva.
Podemos traçar uma cronologia da política brasileira. Nos primeiros 430 anos passamos por governadores gerais, capitanias hereditárias - clássico exemplo de nepotismo oficial, reis, rainhas, príncipes, princesas, bobos-da-corte e todo um cabedal de servos a manter os senhores feudais, quaisquer que fossem eles. No final do século XIX tivemos a República, que em suas primeiras quatro décadas, impôs um regime de troca-troca, conhecido por "Política Café-com-Leite", a representar o poder econômico de São Paulo (café) e Minas Gerais (leite). Obviamente que a política do "pingadão" serviu - única e exclusivamente - para manter sob as botas, qualquer manifestação democrática que fizesse tremer, por mínimo que fosse, o universo elitizado dos poderosos do século passado.
Com a famosa quebra da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929 e por um golpe de estado no ano seguinte, Getúlio Vargas chega ao poder. Ele concedeu algumas benesses, sem dúvida, importantes para o país, mas também privilegiou os donos do poder. Talvez o cerne deste poder tenha mudado à época, mas Getúlio também quedou-se à burguesia. Para adoçar a boca da patuléia fez as leis trabalhistas, que permanecem vigindo até hoje, reconheceu o direito das mulheres ao voto e só. Tudo mais tinha como eixo a permanência do capital nas mãos de meia-dúzia de pessoas.
No período de 1946 até 1964, o Brasil gozou, enfim, de uma pequena fresta democrática. Claro que pagou preço alto por isso, como a construção de Brasília mas, no geral, os anos 50 mostraram uma pequena redução da abissal diferença entre os que tudo tinham e os que buscavam migalhas para a sobrevivência.
O episódio político da renúncia de Jânio Quadros e a seqüência de João Goulart trouxe ao país um efervescente processo de conquista do poder pela classe trabalhadora. Os poderosos, então, melindrados pela perda, trouxeram o inevitável. Durante duas décadas vivemos um regime de exceção no país, um dos mais longos na história do mundo. O período mesclou crescimentos econômicos produzidos na mágica por Delfim Netto e o emudecimento de vozes em favor da tal da democracia.
Neste cenário nasceu políticamente o atual presidente da República. O sindicalista Luiz Inácio, ao lado de tantos outros, ousou soltar a voz na metade final dos anos 70. As reivindicações íam muito além do escopo trabalhista. Lula e seus companheiros não pleiteavam aumentos de salário e melhores condições de trabalho, apenas. Ecoavam a tal voz surda das ruas. Representavam os que não tinham nada e vociferavam contra a manutenção do status quo, que o poder burguês nos impingia goela baixo, por longos 480 anos.
Mexe daqui, mexe dali, João Batista Figueiredo chega ao poder para fechar o baú, passar a régua mesmo. Não havia mais como os militares governarem o país, diante do crescimento da conscientização popular, ou ao menos, daquilo que se chamava conscientização.
Com a eleição de Tancredo, assunção de Sarney, o país recupera algum matiz democrático. Mas Sarney representava, e ainda representa, o velho político caudilho, o verdadeiro senhorio que, em vez de escravos, usa a população e a seca como massa de manobra política. E para quê? Para manter o poder concentrado nas mãos da tal da burguesia.
Mas caminhamos e assim deveria ter sido. No final dos anos 80, década marcada por fatos importantes na política, aqui ou alhures, chega a nossa vez de escolher o presidente da República. Após uma campanha de baixo nível e contando com o apoio da grande mídia, Fernando Collor de Mello se elege vencendo Lula, que não era mais o operário Luiz Inácio. Constituinte, Lula tornara-se político profissional e manteve o discurso maniqueísta da disputa de poder entre a esquerda e a direita.
A eleição de Collor trouxe mais problemas para a nação tupiniquim. Inexperiente e prepotente, Collor teve a sorte de abrir o mercado brasileiro à exportação, assim como D. João abrira os portos às nações amigas 180 anos antes. Entretanto, seu governo foi marcado por escândalos de corrupção, superfaturamento, nepotismo e toda aquela lama, cuja história é de domínio público.
A expulsão de Collor traz ao poder Itamar Franco, velho político mineiro, sempre a representar a classe dominante. Itamar foi um presidente ímpar na história do país. Entrou no jogo, na metade de segundo tempo, quando o Brasil era goleado pela inflação oceânica e pela sacanagem caligular. O mineiro, que se divertia com mulheres, gestou o Plano Real, estancou a inflação e Fernando Henrique Cardoso colheu os frutos, durante oito anos.
FHC também era representante da tal da burguesia monopolista. Grande estadista, dominava as letras. Conseguiu sobreviver às intempéries da economia mundial. Porém, mais uma vez, pagamos o preço. FHC vendeu baratinho a telefonia via privatização, conseguiu sua reeleição por meio de falcatruas no Congresso e, em nome do estado neoliberal, escangalhou de vez o serviço público, sempre culpando os servidores pelas mazelas de nossa terra varonil. Sob ele deu-se início às reformas administrativa e previdenciária que furtaram direitos dos trabalhadores do serviço público, amealhados ao longo de décadas.
O Brasil, enfim, entra no terceiro milênio e 502 anos mais tarde põe no poder, aquele sindicalista que discursva contra o Poder e seus mentores. Luíz Inácio era, agora, o Senhor (Mister, Monsieur) Lula da Silva, presidente deste continental pedaço de chão. Ele era a esperança de milhões. Lembro-me do final da campanha de 2002 quando via no comum do povo, a felicidade estampada pela sensação de missão cumprida.
A posse, no primeiro dia de 2003, foi a glória da pátria de chuteiras com toda a pompa e circunstância. Nem um novo casamento de Lady Diana, traria o poder à plebe, à vassalagem, nós, enfim, os comuns, que vendemos nossa força de trabalho por capital como já definiu Marx no clássico exemplo da Mais Valia.
Aqui, a coisa pega. E pegou feio.
Ao chegar ao poder, Lula e seus asseclas queimaram a língua sob todos os aspectos. Estupefatos, vimos o governo do Lula, com uma nova Reforma da Previdência, a enforcar ainda mais os vencimentos dos servidores públicos. E que não se confunda aqui, com uma pequeníssima minoria que recebe elevados salários. Fomos obrigados a conviver com crises éticas, denúncias, corrupção, sujeira, lama, vômito. Enojados, vimos a cúpula do poder, que estava no entorno do presidente, cair um por um. Muita gente opinou que, o que se via no chamado "governo do povo" foi pior que os escândalos que tiraram Collor do poder.
As máscaras foram sendo removidas e no final das contas, observo que na política partidária, tudo ficou nivelado por baixo. Minha preocupação não é com Lula, um eventual terceiro mandato - que ele tanto nega e que poderá decolar, nem com aqueles que o antecedeu. Também não estou nem aí para parlamentares corruptos e, agradeço aos céus, que ainda temos (sim! eles existem!) um ou outro em que podemos confiar. Não me preocupo com o descaso com caos aéreo e a morte de mais de trezentas pessoas em dois acidentes em menos de um ano. Tampouco, não vou deixar de dormir o pouco que meu corpo pede, porque o presidente do Senado Federal teve uma turnê amorosa que está sendo paga por mim e por você.
Minha preocupação está no conceito e, pior, na falta de perspectiva. Há pouco mais de um mês, logo após o fatídico acidente da TAM, escrevi um texto onde narrava a vergonha de ser brasileiro. Recebi muitas mensagens e até telefonemas. Alguns, a maioria, assinaram em baixo o que redigi. Outros beijaram a mãe-Pátria e juraram-lhe amor eterno. Outro falou que eu deveria requerer outra cidadania e por aí vai. Os que criticaram o meu texto falavam que não tem vergonha de ser brasileiro, afinal, o Brasil é um país maravilhoso e de gente receptiva. Algo, mais ou menos na linha militar dos anos 70, do "Ame-o ou Deixe-o".
O velho conceito maniqueísta de Direita X Esquerda está putrefato, defasado e deveria ser incinerado num crematório ao ar livre na Praça dos Três Poderes. Ficou tudo muito igual e antes que você corra e grite que estou blasfemando contra o poder do povo, siga meu raciocínio.
Lula chegou ao poder porque iria chegar mesmo. Ele já não mais bradava contra a burguesia. Sua vitória foi uma concessão da classe dominante. Ao subir a rampa do Palácio do Planalto, ele entrou para o seleto grupo que joga pôquer com o poder. Em nome da tal governabilidade, ele deu cargos aos apaniguados e recebeu de braços abertos figuras nocivas que, outrora, havia combatido. Hoje, quase cinco anos mais tarde, ele beija e abraça pilotís da burguesia que ele já defenestrou. Anda de braços dados com Sarney, seu presidente do Banco Central - Henrique Meirelles - que goza de um status ministerial imposto por Lula, faz parte do jogo do Deus-mercado que infesta o país. Partidos díspares e antagônicos ao seu discurso na Vila Euclides, transitam pelo governo e até o presidente atual do Senado, que já serviu a Collor e FHC, é defendido por Lula, mesmo sabendo-se que o Caso Renan é um grande segredo de polichinelo, cujo conteúdo, formato e péssimo odor, todos reconhecem.
Aviso aos amigos: já não há mais esquerda e direita. A política nacional virou algo amorfo, insípido e podre. Lembro-me de um amigo que, ano passado, às vésperas da reeleição, confessou-me que Lula era o "mal necessário". Sua popularidade permanece nas alturas, mesmo com todos os problemas, porque isso interessa à classe burguesa e interessa à patuléia ávida pela farta distribuição de miséria sob a alcunha de bolsa-isso ou bolsa aquilo. Até a imbecilidade do movimento "Cansei" não passa de uma pobre mis-en-scene, como para afirmar que a burguesia continua aí e está cansadinha de brincar de Lula presidente.
A internet traz um verdadeiro vale-tudo e daí, lembro-me de Ted Boy. Defensores da outrora direita digladiam-se com os defensores da antiga esquerda. Todos nivelam-se por baixo. Uma coisa rasteira e sombria. Quando Lula e seu governo é atacado, seus discípulos correm para mostrar, qual carne fresca, os podres passados e/ou presentes do pseudo-oposicionistas de hoje. Ofensas são trocadas em grupos de e-mail e tudo para a única missão de manter o poder. Como há 500 anos. Isso porque foi criada uma classe de neo-burgueses que vieram com a chegada de Lula à presidência.
Às vésperas da campanha eleitoral para as prefeituras e câmaras municipais, os ânimos estão acirrados. Mas... ninguém discute projetos, propostas, mesmo ultrapassadas ou eleitoreiras, inclusive as irrealizáveis. Dá até para lembrar aqui a antológica "Dissertação do Papa sobre o Crime seguida de Orgia" do Marquês de Sade, que foi declamada no álbum "Titanomaquia" da banda Titãs na década passada. Ei-la:
"O assassinato é uma paixão como o jogo, o vinho, os rapazes e as mulheres, e jamais corrigida se a ela nos acostumar-mos. O crime é venerado e posto em uso por toda a terra, de um pólo a outro se imolam vidas humanas. Quase todos os selvagens da América matam os velhos se os encontram doentes. É uma obra de caridade por parte dos filhos. Em Madagascar, todas as crianças nascidas às terças, quintas e sextas feiras são abandonadas aos animais ferozes. Constantino, imperador tão severo e querido dos cristãos, assassinou o cunhado, os sobrinhos, a mulher e o filho. Nos mares do Sul, existe uma ilha em que as mulheres são mortas como criaturas inúteis ao mundo quando ultrapassam a idade de procriar. Em Capo Di Monte, se uma mulher dá à luz a duas crianças gêmeas o marido logo esmaga uma delas. Quando Gengis Khan se apoderou da China mandou degolar à sua frente dois milhões de crianças. Os Quóias furam as costas das vítimas a pancadas de azagaia, em seguida cortam o corpo em quartos e obrigam a mulher do morto a comê-lo. Os Hurões penduram um cadáver por cima do paciente, de maneira a que possa receber na cara toda a imundice que escorre do corpo morto, atormentando assim o desgraçado até que ele expire. Os Irlandeses esmagavam as vítimas. Os Noruegueses perfuravam-lhes o crânio. Os Celtas enfiavam-lhes um sabre no esterno. Apuleio fala do tormento de uma mulher cujo pormenor é bem agradável, coseram-na com a cabeça de fora, dentro da barriga de um burro ao qual tinham sido arrancadas as estranhas. Deste modo foi exposta aos animais ferozes".
Assim está a política nacional. Nestas missivas, o conteúdo é tão baixo nível que parece a disputa de porcos pela melhor porção de lavagem. E pasmem: todos se esqueceram do Brasil.
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