"Quem apostar em briga minha com Serra vai errar"
São Paulo. O ex-governador Geraldo Alckmin está cada vez mais zen. Além de rezar, todos os dias estuda Inglês e medicina chinesa. Uma vez a cada 15 dias, dedica quatro horas para aulas no Curso de Medicina Tradicional Chinesa, no Hospital do Servidor Municipal de São Paulo. Aplica esses conhecimentos baseados no cuidado à saúde e não à doença, praticando acupuntura no ambulatório da Escola Paulista de Medicina.
Liliana Lavoratti e Cláudia Mancini
São Paulo. O ex-governador Geraldo Alckmin está cada vez mais zen. Além de rezar, todos os dias estuda Inglês e medicina chinesa. Uma vez a cada 15 dias, dedica quatro horas para aulas no Curso de Medicina Tradicional Chinesa, no Hospital do Servidor Municipal de São Paulo. Aplica esses conhecimentos baseados no cuidado à saúde e não à doença, praticando acupuntura no ambulatório da Escola Paulista de Medicina.
Esse estado de espírito, no entanto, não impede que Alckmin dê agulhadas também no sentido figurado. Em entrevista ao JB, manda um claro recado para o governador mineiro Aécio Neves, que disputa a vaga do PSDB na corrida presidencial de 2010 e tem feito movimentos de aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
- Entendo que o Aécio Neves coloque a questão da civilidade na política e o bom relacionamento entre os partidos em termos de governos federal, estaduais e municipais. Mas, na democracia quem ganha governa e quem perde fiscaliza - afirma.
O tucano defende ser a tarefa do PSDB neste momento fazer oposição e entende o limite dos governadores nessa trincheira.
- A tarefa de Aécio Neves e demais governadores do partido não é fazer oposição, mas realizar bons governos e boas parcerias com outros níveis de governo, independentemente da sigla partidária desses parceiros, mas apenas no campo administrativo - argumenta.
Em nenhuma hipótese concorda com uma aliança eleitoral das duas legendas.
- O PSDB não pode se aliar ao PT, deve ser a alternativa ao PT em 2010 - enfatiza.
Apesar de não admitir sua candidatura à prefeitura de São Paulo em 2008 e mesmo para a corrida presidencial de 2010, o ex-governador não está parado. Iniciou a Caravana Tucana pelo Norte e Nordeste para ampliar as bases do partido, que em oito Estados não elegeu deputados federais e em alguns só fez três prefeituras.
Entrevista Geraldo Alckmin
Perfil Geraldo Alckmin nasceu em Pindamonhangaba, no interior paulista, em 1952. Foi eleito vereador do município aos 19 anos e prefeito aos 23 anos pelo MDB. Médico anestesista, fez carreira política com as bênçãos do ex-governador tucano Mário Covas. Um dos fundadores do PSDB, assumiu o governo de São Paulo em 2001. Concorreu à Presidência em 2006 contra Luiz Inácio Lula da Silva, e perdeu a eleição no 2º turno.
Dirigentes do PSDB concluíram que o partido se comunica mal. FH sugeriu trocar o bico do tucano por um bico de sabiá, que canta melhor. O problema do PSDB é de comunicação ou de postura política e programática?
O PSDB é um partido de apenas 19 anos e chegou à Presidência da República em dois mandatos. Deixou o legado histórico do controle da inflação, implantou uma agenda fiscal com privatização em áreas importantes, criou uma rede de proteção social com o Bolsa Família e o Bolsa Escola, promoveu uma melhor inserção internacional do Brasil. Temos boas gestões estaduais: estamos no quarto mandato em São Paulo, totalizando 16 anos. Aécio Neves está fazendo um belo governo em Minas. O PSDB é um partido que veio para ficar, temos quadros excelentes, mas precisamos melhorar nossa organização.
Lula governa com uma ampla base. A tendência é a de que o presidente chegue com popularidade alta em 2010. A caravana tucana faz parte da estratégia para enfrentar o candidato governista?
A Caravana Tucana é um giro pelo país, que começa agora pelo Acre, Rondônia, depois vou ao Nordeste. Vou sozinho para não dar despesa ao partido. Desço do avião, sou recebido pelos parlamentares, dirigentes regionais e locais do partido, prefeitos ou governadores, onde existirem. Converso com eles e com a imprensa, dou palestra para os militantes e diversas entidades de classe, de produtores rurais, empresários, sociedade civil.
A caravana começa pelo Norte e Nordeste, onde o PSDB tem pouca base eleitoral e o presidente Lula é muito forte.
Eu também tive bons resultados em alguns estados dessas regiões. Fiquei à frente do presidente Lula no primeiro turno em Rondônia, Goiás, Acre e Distrito Federal. Nos dois turnos ganhei no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul. Eu gosto de percorrer o país, como fiz na campanha presidencial do ano passado.
O governo Lula apresenta deficiências na área gerencial, suposta especialidade do PSDB. Mas o PT tem uma representação social muito forte. Por isso, muitos analistas sugerem que o mais adequado para o Brasil seria uma aliança entre tucanos e petistas. Há alguma chance de aliança entre PT e PSDB em 2010, como admitiu Aécio Neves?
Gosto muito do Aécio Neves, acho que ele tem uma grande vocação política e entendo que está colocando a questão da civilidade na política e o bom relacionamento que os partidos devem ter em termos de governos federal, estaduais e municipais. Mas, na democracia, quem ganha governa e quem perde fiscaliza. Nossa tarefa é ser oposição, que, aliás, é muito necessária. Uma oposição forte evita abusos e não deixa o governo se acomodar. O governo Lula é um marasmo total, se acomodou na boa situação internacional de maior liquidez das últimas décadas. Quando Lula disse que quer três anos de trégua, demonstrou não entender a democracia. Tão importante quanto o governo é a oposição.
Mas Aécio Neves tem dado sinais claros, junto com algumas lideranças petistas mineiras, dessa proximidade entre os dois partidos.
A tarefa dos governadores Aécio Neves (MG), Cássio Cunha Lima (PB), Ottomar Pinto (RR), Yeda Crusius (RS), Teotônio Vilela Filho (AL) e José Serra (SP) não é fazer oposição, mas fazer bons governos, e sob o campo administrativo, realizar boas parcerias com os governos federal e municipais, independentemente da sigla partidária desses parceiros. O governante não é um capitão do mato, o dinheiro não é dele, nem do partido, mas do povo que paga os tributos, é publico. O lugar de exercitar oposição é no Parlamento e pela voz do partido. Claro que não somos incoerentes, como o PT, que na oposição, votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, a reforma da Previdência, o Fundef e o Plano Real. Se defendemos a reforma da Previdência quando éramos governo, também votamos a favor em 2003, quando foi aprovada a proposta de emenda constitucional da previdência pública e, até hoje, não regulamentada. Nossa oposição não é igual à do PT. É tão patriótico ser governo quanto oposição.
Então Aécio está se precipitando?
É importante o país ter partidos preparados para a alternância no poder. Nós temos quadros, programa e experiência acumulada para governar o Brasil. O PSDB não deve se aliar ao PT, deve ser a alternativa ao PT em 2010. O presidente Lula encerra o ciclo de oito anos no Planalto, como aconteceu com Fernando Henrique Cardoso. Nenhuma eleição é fácil. O presidente Lula terá um candidato para sucedê-lo. Não acredito que vá batalhar por um terceiro mandato. Recentemente ele declarou que não se acha insubstituível e que, portanto, não será um ditadorzinho.
Se o governo está parado, o PSDB não estaria falhando?
A culpa de o governo estar parado não é da oposição, mas do próprio governo. É nossa tarefa fazer oposição, mas isso não é fácil em um país onde apenas 130 dos 513 deputados federais não são governistas. Existe uma cultura governista que torna mais difícil mostrar à sociedade que um segundo mandato é um novo mandato. Estamos no final de 2007 e já existe um clima de fim de festa. Essas conversas recorrentes sobre 2010 mostram que o governo foi encurtado. Não há esperança de aprovação das reformas estruturantes pendentes. O bom momento mundial que tivemos até agora não foi aproveitado para melhorar a situação macroeconômica do país. A grande questão é gerar mais emprego e renda, melhorar os salários. Há 30 anos a renda per capita do brasileiro era maior que a da Coréia do Sul, hoje lá está três vezes acima da nossa. Além da elevada carga tributária, os empreendedores brasileiros enfrentam uma moeda sobrevalorizada.
Em 2010, Alckmin pretende lançar-se candidato à presidência?
Temos dois governadores muito bem posicionados para 2010: José Serra, em São Paulo, e Aécio Neves, em Minas Gerais. São bons quadros, bons candidatos. O que eu puder fazer para ajudar o país, eu farei.
Isso significa que o senhor, desde já, está fora dessa disputa pela vaga tucana na corrida presidencial?
Tive essa oportunidade em 2006, levei a eleição para o segundo turno com 40% dos votos e entendo que 2010 será o momento de Aécio e Serra. Vou colaborar para que o partido esteja unido em um projeto para o país.
Entre Serra e Aécio, Alckmin fica com qual dos dois?
Estarei com o PSDB. Não é hora de discutir nomes. Tudo a seu tempo. A primeira tarefa é organizar o partido no Brasil inteiro. Temos pela frente o congresso nacional, em novembro. Vamos discutir nomes somente em 2009. Converso muito com Serra e Aécio e estamos absolutamente tranqüilos e unidos para 2010.
Antes de 2010 tem a eleição para a prefeitura de São Paulo. Ao que tudo indica, Kassab vai ser candidato a prefeito, embora o senhor lidere as pesquisas.
Não existe ainda nenhuma decisão sobre a candidatura para disputar a prefeitura de São Paulo. Esse é um assunto para o ano que vem. Vou ajudar o PSDB a sair melhor em todos os municípios onde isso estiver ao meu alcance. A tarefa do momento é apresentar bons candidatos, um programa mínimo de governo, estruturar o lançamento de candidaturas competitivas em boa parte do país. Só em 2008 vou tratar do assunto eleições municipais em São Paulo. Outubro de 2008 ainda está muito longe.
Serra afastou muitas pessoas do grupo de Alckmin do governo estadual. Como está a relação entre os dois?
Falamos toda semana, nos cinco meses que estive nos Estados Unidos ele foi me visitar em Cambridge (Inglaterra), tomamos café, trocamos idéias. Quem apostar em briga minha com José Serra vai errar redondamente. Estamos todos unidos para servir ao povo. Temos responsabilidade com o legado deixado por Franco Montoro, Mário covas, José Richa e Sérgio Motta. Nossa missão é continuar essa luta, montar equipe é uma tarefa do governo, que deve ter toda a liberdade para isso. Quando assumi o governo paulista também trouxe gente nova e isso é bom, embora vários quadros da minha administração continuem no governo do Serra. Cargos de confiança, cada governante escolhe. Essa é uma corrida de revezamento, cada um cumpre uma etapa. O PSDB chegou ao quarto mandato em São Paulo porque não se desviou dos princípios de eficiência, ética e responsabilidade.
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