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Professor trabalha?

por Sylvio Micelliúltima modificação 10/02/2008 10:08 Via Política


A pergunta é paradoxal. Há quem acredite que professor não trabalha ou que tem “vida boa”. Há a discussão sociológica sobre o caráter produtivo ou improdutivo do trabalho docente, atividade humana que não produz uma mercadoria objetivada. Não obstante, a força de trabalho intelectual é valor de uso e valor de troca, e, portanto, mercadoria. O patrão pode ser privado ou estatal, mas o professor precisa vendê-la.

Por Antonio Ozaí da Silva*

A pergunta é paradoxal. Há quem acredite que professor não trabalha ou que tem “vida boa”. Há a discussão sociológica sobre o caráter produtivo ou improdutivo do trabalho docente, atividade humana que não produz uma mercadoria objetivada. Não obstante, a força de trabalho intelectual é valor de uso e valor de troca, e, portanto, mercadoria. O patrão pode ser privado ou estatal, mas o professor precisa vendê-la.

Isso é mais antigo do que parece. Os primeiros a vender essa espécie de “mercadoria” foram os sofistas, sábios que viajavam pela Grécia antiga ensinando retórica e outros conhecimentos úteis aos envolvidos nos negócios privados e públicos. Ofereciam uma “mercadoria” que tinha um mercado disponível. Nossos ancestrais precisavam considerar os interesses dos alunos (“clientes”), do contrário não teriam público disposto a pagá-los.

A atividade dos sophistés não era vista com bons olhos. Platão, por exemplo, considerava-os interesseiros e comerciantes do saber à caça dos jovens ricos. O termo sofista terminou por significar impostor (derivado do latim sophista). Atualmente, o comércio do conhecimento é institucionalizado, virou profissão. E, como naquela época, criticável e submetida às leis do mercado.

Sócrates, cujo estilo de vida se assemelhava ao dos sofistas, não vendia ensinamentos filosóficos. Isso é impossível nas condições atuais. O saber tornou-se mercadoria, mesmo no setor público. Na faculdade privada o aluno paga o professor, intermediado pelo administrador, ou seja, o/s proprietário/s do estabelecimento; no setor público, a sociedade nos mantém através dos impostos. A situação é pior do que na época dos sofistas, pois estes negociavam diretamente, não precisavam de intermediários. Hoje, o profissional do ensino recebe apenas parte do que se arrecada a partir do desempenho da sua função. São assalariados cuja venda da força de trabalho gera lucro, embolsado por uma minoria da sociedade que vive da exploração do trabalho. No setor público, pelo menos há a ilusão de que não somos explorados, já que servimos à sociedade e o governos aparece apenas como intermediário entre esta e os docentes.

Não geramos lucro direto, apenas gastos. Mas produzimos profissionais em todas as áreas necessárias à sociedade. Porém, isso não é suficiente, até porque o retorno do nosso trabalho à sociedade é questionado e questionável. Terminam por nos lançar a pecha de “impostores”, gente de boa vida que ganha bem e nada faz. Uns inúteis! A relação é de amor e ódio. Precisam de professores para formar os seus filhos e prepará-los para ganhar dinheiro e correr atrás dos interesses privados e, por isso, até nos respeitam. Mas acham que nossos salários são altos e que grassa a vagabundagem em nosso meio.

Como em todas as profissões, infelizmente há entre nós os que vêem o setor público como “coisa de ninguém” ou do governo, algo a ser consumido descaradamente. Quando não se tem a devida responsabilidade com os alunos, a comunidade acadêmica e a sociedade, fortalece-se a má impressão e alimenta-se o estereótipo que se têm sobre o servidor público. Vêem-nos como uma elite que ganha bem e cujo trabalho não justifica a paga. Consideram-nos improdutivos, displicentes e irresponsáveis.

A generalização é equivocada. Ainda que nosso trabalho não seja devidamente reconhecido pela sociedade e até mesmo considerado inútil, muitos são os que desempenham a função docente de forma responsável, que se indagam sobre o papel que cumprem enquanto intelectuais e a relação com a sociedade. Há os apaixonados pelo que fazem, que concebem o trabalho docente como uma missão. Apesar de tudo, nosso trabalho é imprescindível.

12/01/2008

* Antonio Ozaí da Silva, Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), é docente na Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná.

Fonte: Blog do Ozaí
http://antonio-ozai.blogspot.com/



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