O IPEA entra na briga
Até o ano passado, a ala carioca do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômico Aplicadas) parecia uma sucursal de alguma instituição financeira. Prestava-se a trabalhos de análise de conjuntura, redundantes e fora de sua vocação de pensar o longo prazo. Nas análises, uma insistência mórbida em atacar qualquer forma de benefício social, e se calar vergonhosamente ao tratar da questão do impacto dos juros sobre as despesas correntes.
Até o ano passado, a ala carioca do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômico Aplicadas) parecia uma sucursal de alguma instituição financeira. Prestava-se a trabalhos de análise de conjuntura, redundantes e fora de sua vocação de pensar o longo prazo. Nas análises, uma insistência mórbida em atacar qualquer forma de benefício social, e se calar vergonhosamente ao tratar da questão do impacto dos juros sobre as despesas correntes.
Com as mudanças ocorridas no segundo semestre do ano passado, o jogo começa a mudar. O “Texto para Discussão no. 1319” é um bom exemplo. O título do trabalho de Ronaldo Coutinho Garcia é “Despesas Correntes da União: Visões, Omissões e Opções”. Curiosamente, o trabalho tinha sido concluído em março de 2007, mas só agora entrou nos textos para discussão do órgão.
***
O trabalho critica os que propõem meramente uma redução na relação despesas correntes/despesas totais, sem atentar para as questões políticas e as distorções trazidas pelo mero corte linear – uma proposta sempre reiterada por economistas e jornalistas de mercado, e desqualificada por qualquer manual de gestão.
Nos últimos anos, recorreu-se a contingenciamentos orçamentários e cortes lineares em projetos em andamento. De um lado, desorganizaram-se as despesas; de outro, ao reduzir sua eficácia, criaram álibis para sua redução linear.
***
Depois, o trabalho mergulha na análise do orçamento, que é dividido em dois, de acordo com a destinação dos recursos: despesas de capital são todas aquelas que contribuem diretamente ou indiretamente para a aquisição de um bem de capital; as demais despesas são classificadas como correntes.
Por sua vez, ela é dividida em três grupos: despesas e encargos sociais; juros e encargos da dívida e outras despesas correntes – um enorme caldeirão que junta vários tipos de despesa.
O trabalho recorre então a uma tentativa da Secretaria de Assuntos Econômicos da Presidência do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) de organizar os dados.
Pelos dados apresentados, de 2000 a 2005, o “custo da máquina” foi reduzido em 6,8% como proporção do PIB. Os gastos correntes finalísticos (aqueles que chegam até o contribuinte) passaram de 9,26% para 10,48% do PIB. A participação desses recursos nas rendas dos 50% mais pobres saltou de 12,4% em 2000 para 15,1% em 2006.
Os números são expressivos.
Entre 1995 e 2006 as despesas correntes caíram de 86,10% para 79.04% do PIB. A redução de “pessoal e encargos sociais” foi a mais expressiva: de 24,53% para 13,42%. Já juros e encargos da dívida saltaram de 10,86% para 18,94% do PIB.
Benefícios previdenciários ficaram praticamente estacionados – de 21,09% para 20,27% do PIB. Nas despesas de capital, a amortização da dívida pública saltou de 5,8% para 15,16% do PIB em 2006.
***
“Muitas despesas de custeio – principalmente nas áreas em que há elevado peso na produção de bens e serviços, entregues à sociedade, e na manutenção dos órgãos – não são feitas com a eficiência possível. Mas alcançá-la exige não o simples corte de recursos, e sim a adoção de técnicas gerenciais mais sofisticadas, métodos de programação e avaliação mais elaborados e sistemas de tomada e prestação de contas”, conclui o trabalho.
Ladeira abaixo
É bobagem projetar os dados de superávit comercial dos últimos anos para calcular o de 2008. Na ponta, a deterioração do saldo tem sido violenta. Nas duas primeiras semanas de janeiro, por exemplo, as exportações brasileiras registraram aumento de 18,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Mas as importações cresceram 40,8%. Nas exportações o maior crescimento foi nos semimanufaturados (37,2%).
Inflação chinesa – 1
O governo chinês parece disposto a “tabelar” a inflação chinesa. Ontem foi definido um teto máximo de 4,6%. Em novembro, a inflação anual foi de 6,9%, o maior índice dos últimos onze anos. A CNRD (Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento) definiu como prioridade o controle do crescimento chinês. Para dois em cada três habitantes das cidades, a inflação foi considerada a questão social mais preocupante.
Inflação chinesa – 2
A carne de porco sofreu aumento de 56% no período; as aves, 38,8%. Os demais bens de consumo subiram apenas 1,4%. Em 2007 a economia chinesa cresceu 11,5%, quinto ano consecutivo acima de 10%. Mas os mais pobres gastam cerca de 1/3 dos rendimentos em alimentação, o que acentua a preocupação do governo chinês. Nos anos anteriores, o governo não conseguiu cumprir com sua meta de segurar o crescimento.
Problemas do Citigroup – 1
O Citigroup foi dois bancos mais afetados pela crise do “subprime”. Apesar da venda de participação para fundos árabes, ainda necessita de uma capitalização adicional de US$ 10 bilhões. Ontem o governo chinês não aceitou que o banco de fomento China Development Bank --que opera o fundo soberano do país-adquirisse ações do Citi. Antes, o fundo havia investido US$ 5 bilhões no Morgan Stanley.
Focus – 1
O mercado financeiro não se mostra muito otimista quanto à possibilidade de novos cortes da taxa básica de juros em 2008. De acordo com o boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, analistas elevaram suas projeções. A expectativa agora é que a Selic encerre 2008 em 11,13%, ao passo que na semana anterior os prognósticos indicavam juros em 10,75%. Atualmente, a Selic está em 11,25% ao ano.
Focus – 2
As projeções de analistas do mercado apontam para tendência de aumento da inflação em 2008. Embora tenham reduzido discretamente suas estimativas para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 2008 (de 4,30% para 4,29%), a tendência de alta pode ser observada na comparação com as projeções declaradas há um mês, quando se esperava variação de 4,20% no fechamento do ano.
Blog: www.luisnassif.com.br
E-mail: luisnassif@ig.com.br
Câmara e Senado fecham acordo sobre regra para MPs