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Ainda resta ideologia partidária?

por Sylvio Micelliúltima modificação 23/02/2008 13:16 Folha de Pernambuco


No dicionário, a palavra ideologia se apresenta como a ciência que trata da formação de idéias. Já o termo partido, equivale à associação de pessoas que seguem a mesma doutrina política. Mas, a expressão “ideologia partidária”, pelo que se observa na prática, torna-se distante do pensamento utópico de um grupo político movido pelo mesmo ideal. Os primeiros partidos brasileiros surgiram no segundo reinado (1840-1889), divididos em conservadores e liberais.

No dicionário, a palavra ideologia se apresenta como a ciência que trata da formação de idéias. Já o termo partido, equivale à associação de pessoas que seguem a mesma doutrina política. Mas, a expressão “ideologia partidária”, pelo que se observa na prática, torna-se distante do pensamento utópico de um grupo político movido pelo mesmo ideal. Os primeiros partidos brasileiros surgiram no segundo reinado (1840-1889), divididos em conservadores e liberais. De lá para cá, grupos com objetivo de ocupar espaços no Poder foram ampliados, extintos, fundidos e modificados, com número total registrado atualmente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 27 siglas. A questão principal versa sobre as coligações e as dobradinhas. As alianças em prol da governabilidade e da conquista eleitoral, principalmente em cidades do Interior, chegam a descambar em combinações de linhas de pensamento totalmente antagônicas. Fica a dúvida: o que vale mais? O Poder ou a proposta?
 
Dentro do processo de “mutações partidárias”, o PFL desponta com a mais recente “refundação”. Criado em 1985, dentro do processo de redemocratização, a Frente Liberal chegou ao Poder por meio do líder Tancredo Neves, após um longo período de comando nacional controlado por militares. A nomenclatura Democratas foi estabelecida no final de 2007. Além disso, os correligionários resolveram dar uma cara mais jovem, substituindo o comando do senador Jorge Bornhausen (SC) pelo deputado federal Rodrigo Maia (RJ). Para o presidente estadual do DEM, Mendonça Filho, a mudança proposta pelo partido possui um significado importante dentro do cenário político brasileiro. “O Democratas vem de um processo histórico que calha com a atual conjuntura. Com o PT no Governo, completa-se o ciclo do Poder brasileiro. Todas as forças políticas governaram e, no fechamento deste ciclo, estamos nós, com nossa refundação”, explica.

Mendonça Filho garante não cultivar a tese do “partido perfeito”, como alguns “petistas fazem”. Para ele, todas as legendas, como os homens, possuem imperfeições. Ele atesta que não se pode ter um discurso diferente da prática política. “Buscamos enfatizar políticas públicas, melhorias na saúde e na educação. Não fazemos como o PT que, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), era contra as privatizações, mas hoje fala em concessão de rodovias federais”, alfinetou. “Nossa lógica é melhorar a vida de todos. Proporcionar mais empregos, uma gestão melhor para os trabalhadores”, explicou o democrata.

Questionado sobre a possibilidade de coligações “contraditórias” em municípios do Interior, Mendonça Filho garante que a orientação é evitar. “A tendência é apoiar a base oposicionista. É uma diretriz da sigla. Para coligar, deve haver convergência. O PT, por exemplo, defende questões da boca para fora. Com os últimos episódios do PT, escândalos do Correios, mensalão, Visanet, o partido deles ficou em uma posição questionável”, avalia o democrata.

Ainda criticando o PT, Mendonça Filho promoveu a sua tese partidária. “Acredito em legendas políticas juntas com a sociedade e baseadas em conceitos éticos. São os métodos que nos separam (DEM e PT). Ao fazer um projeto de governo, uma base de ação interfere. Acreditamos que para o preenchimento de cargos, deve-se ter critérios. O PT é o pior do mundo e não participamos disso”, garantiu.

Na refundação, a escolha por uma sigla sem o “P” acabou virando gozação no meio político. O DEM, na boca de alguns parlamentares, tornou-se “DEMO”. Em virtude disso, o Democratas agora tenta emplacar o “D25”, anexando o número eleitoral na abreviação partidária obrigatória. Mas Mendonça Filho nega que este seja o motivo de mais uma intervenção. “Nada impede termos pejorativos. Os petistas, por exemplo, são chamados de petralhas - em referência aos personagens de quadrinhos “Irmãos Metralha”. Mas, nosso embate não precisa ir para esse campo da chacota”, ponderou.

Os Democratas também constituíram um símbolo, uma árvore, bem semelhante à imagem do partido federalista inglês. “Isso é muito mais um contorno de mídia. A árvore não tem dono. A copa é formada por três “Ds” que se enlaçam em tons de cores diferentes”, explica Mendonça Filho.

Estudiosos alegam inexistência de lados
Estudiosos do campo político escutados pela reportagem defendem que não há, na prática, ideologia partidária. Para o professor e cientista político Adriano Oliveira, o conceito claro de divisão entre direita e esquerda no Brasil foi extinto definitivamente após a entrada do PT no Governo Federal. “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu e continuou com a política que considerava de direita”, explica. Para ele, em prol da governabilidade e para garantir a manutenção do Poder, o PT foi obrigado a se aliar com siglas que criticava quando era oposição. “O PMDB era taxado de direita e hoje é alinhado na esquerda”, lembra. As coligações feitas no interior do Estado que não obedecem à linha nacional são outros fatores a serem levados em consideração.

Na concepção do cientista político Túlio Velho Barreto, na disputa pelos cargos eletivos acaba prevalecendo uma “posição pragmática e os interesses mais imediatos dos dirigentes partidários”. Ele ainda avalia que após a queda do muro de Berlim, em 1989, houve uma crise entre os partidos ideológicos. “O PT é reflexo disso. Embora tenha surgido como um concorrente das legendas comunistas, hoje, o PT aproximou-se do centro e, nesse centro, de certa forma, cabe muitos partidos brasileiros. Isso provoca uma dificuldade maior para identificar se a agremiação é de esquerda ou de direita”, avaliou.

Túlio Velho Barreto explica que, nas eleições, os candidatos também fazem dobradinhas que, no aspecto legal, não existem. “De vez em quando, aparece algum candidato com uma coligação esdrúxula. A questão é pragmática. Não existe ideologia alguma. Na ultima campanha (2006), a quantidade de candidatos proporcionais que apoiavam Luiz Inácio Lula da Silva era muito grande, até mesmo por quem não fazia parte da coligação”, disse. Segundo o cientista, essas coisas ocorrem dentro de aspectos existentes no rol político. “A Legislação é frouxa, não é célere e falta punição. Outro fator é o comportamento (dos candidatos). Dentro dos elementos de cultura política, montar caixa dois durante a campanha eleitoral é crime. Mas, não é uma prática recorrente?”, questiona.

Planos econômicos aproximam PT e PSDB
Ao conquistar a Presidência da República, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manteve vários aspectos da gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Mais notadamente a política econômica, bastante criticada pelos petistas na época em que pertenciam à oposição. Os tucanos chegaram a veicular em sua propaganda partidária projetos e programas do atual Governo que foram herdados como “acertos” da administração anterior. Em muitos aspectos, os programas das legendas também se assemelham no que trata da proposta de governabilidade.

O presidente estadual do PT, Jorge Perez, admite haver uma aproximação no “papel”, mas garante que as “práticas” são distintas. “É só comparar os resultados econômicos, sociais e políticos. O objetivo do PSDB não era construir uma nação forte e autônoma. O PSDB tinha uma proposta de submissão do País. O PT sempre dizia que o Estado tinha um papel indutor da economia. Está aí o PAC. Não tem comparativo, essa idéia, na verdade, é muito mais procurar atingir a imagem do PT”, acredita.

Apesar de todos os escândalos envolvendo o PT em nível nacional, Jorge Perez defende a sigla. “Continuamos sendo um partido ético e isso não quer dizer que não erramos. A diferença está na atitude que tomamos com relação aos nossos erros e o que os outros partidos tomaram com relação aos seus equívocos”, garante.

Apesar das críticas, Perez não rechaça a possibilidade de coligações com adversários em alguns locais, a exemplo do interior do Estado. “Eventualmente, em casos isolados, o partido permite existir essa coligação, mas em caso de governabilidade”, justifica. Mas o presidente do PSDB, Evandro Avelar, descarta a união entre tucanos e petistas em Pernambuco. “Vamos estar presentes em 70 eleições no Estado - com candidaturas a prefeito - e não vejo nenhuma possibilidade de coligação com o PT”, afirmou.

De acordo com Avelar, a ideologia partidária implantada pelo PSDB defende políticas públicas sociais de “redução de desigualdades”. “Fizemos isso no Governo Fernando Henrique Cardoso. Todo mundo reconhece que o Governo Lula deu continuidade à nossa política econômica e social. Fora isso, é uma série de atropelos”, alfinetou.

Fonte: Folha de Pernambuco



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