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O jornalismo legislativo no campo do jornalismo público

por Sylvio Micelliúltima modificação 02/05/2008 10:37 Observatório da Imprensa


As casas legislativas brasileiras, ao criarem veículos próprios de comunicação, principalmente as emissoras de televisão – a primeira, a TV Assembléia, de Minas Gerais, entrou no ar no dia 30 de novembro de 1995 – pretendiam oferecer ao cidadão uma opção à cobertura da mídia tradicional em relação ao Parlamento. Essa iniciativa acompanhava a tendência proporcionada pelo advento do conceito de jornalismo público, um movimento de questionamento do chamado jornalismo de mercado.

MÍDIA & CIDADANIA
O jornalismo legislativo no campo do jornalismo público

Por Luiz Carlos Santana de Freitas
Observatório da Imprensa

As casas legislativas brasileiras, ao criarem veículos próprios de comunicação, principalmente as emissoras de televisão – a primeira, a TV Assembléia, de Minas Gerais, entrou no ar no dia 30 de novembro de 1995 – pretendiam oferecer ao cidadão uma opção à cobertura da mídia tradicional em relação ao Parlamento. Essa iniciativa acompanhava a tendência proporcionada pelo advento do conceito de jornalismo público, um movimento de questionamento do chamado jornalismo de mercado.

No começo da década de 90, pesquisadores, professores e jornalistas norte-americanos começaram a promover uma nova atitude de ligação do jornalismo informativo com os diversos públicos. Conforme Paulo Celestino da Costa Filho, "mais do que uma estratégia para restabelecer a confiança e credibilidade dos meios com seus usuários, o jornalismo público entende a mídia como peça-chave na constituição do novo espaço público característico da pós-modernidade".

O professor Luiz Martins, da Universidade de Brasília, lembrou, em trabalho publicado em 2002, que o conceito de "jornalismo público" ou "jornalismo cívico" surgiu nos Estados Unidos, em 1990, criado pelo David Merrit, editor-chefe do Wichita Eagle, da cidade de Wichita (Kansas). Entre outros fatores que contribuíram para o seu surgimento, estava o declínio da leitura de jornais, mas os seus objetivos principais não estavam relacionados a problemas econômicos, e sim, sociais e comunitários, entre outros.

Vínculo com o Estado

No Brasil, essa nova abordagem na forma de se fazer jornalismo encontrou o seu maior expoente na TV Cultura, gerida pela Fundação Padre Anchieta, ligada ao governo do estado de São Paulo. Desde meados do ano 2000, a emissora decidiu avançar na aplicação do conceito na sua programação jornalística, buscando a sua revisão e uma configuração mais adaptada à realidade brasileira.

Segundo Luiz Martins, o que tem caracterizado, o jornalismo público é "a intenção de não apenas se servir dos fatos sociais no que eles apresentam de dramático, mas agregar aos valores/notícia (news values) tradicionais elementos de análise e de orientação do público quanto a soluções dos problemas, organizações neles especializadas e indicações de serviços à disposição da comunidade: endereços, telefones úteis, faxes, e-mails, sites etc.".

Na mesma linha do jornalismo público, o jornalismo legislativo – ou seja, aquele praticado na cobertura da atividade político-parlamentar pelos veículos mantidos pelas casas legislativas – procura promover a formação crítica do telespectador para o exercício da cidadania, reforçando "a crença de que só o conhecimento leva à compreensão superior dos fatos e a mudanças em vários níveis... informar para transformar", conforme estabelece o Manual de Jornalismo Público da TV Cultura, publicado em 2003.

Entretanto, de acordo com os seus construtores, o jornalismo público só é possível num veículo também público, isto é, cujo modelo de gestão contemple a participação de legítimos representantes dos diversos grupos de interesses dentro da sociedade. Já o jornalismo legislativo ainda se encontra organicamente vinculado à máquina do Estado, no caso ao Poder Legislativo, dependente administrativa e financeiramente dele, o que acaba por não permitir uma interferência imediata do cidadão na gestão dos veículos onde é exercido.

A prática da cidadania

Portanto, além dos mecanismos de gestão e financiamento, o jornalismo legislativo se destaca do jornalismo público quanto à forma de controle social a que é submetido. Nos veículos públicos, pressupõe-se a existência de fiscalização constante de um conselho gestor, onde os setores organizados da sociedade, públicos e privados, se fazem representar de forma direta nos processos decisórios, inclusive sobre a postura editorial adotada. Diferentemente, nos veículos legislativos, há o que se pode chamar de controle social indireto, levado a efeito pelos representantes eleitos pelo cidadão, responsáveis pelos rumos do processo político-parlamentar. Costuma-se dizer que em cada gabinete parlamentar existe algum ombudsman que acompanha o funcionamento dos veículos respectivos legislativos.

Mesmo assim, o jornalismo legislativo apresenta, pelo menos, duas das características essenciais ao jornalismo público: o pluralismo ideológico e o tratamento racional das notícias. Uma das diferenças mais aparentes reside no fato de que o jornalismo público passou a ser uma opção histórica dos veículos públicos – por exemplo, da TV Cultura de São Paulo – e até por emissoras comerciais mais comprometidas com o interesse social, com o objetivo de cumprir sua função em relação aos seus públicos. Já o jornalismo legislativo surgiu e é moldado por uma série de normas e princípios explícitos, no sentido de racionalizar a atividade, garantindo que a cobertura jornalística dos fatos relativos ao parlamento seja feita da forma mais objetiva e equilibrada possível.

Por isso, podemos dizer que o jornalismo legislativo e o jornalismo público compartilham vários pontos, na prática e conceitualmente, que os colocam no mesmo campo, ou seja, o do interesse público. Ambos têm características peculiares e paradigmas diversos dos praticados pelo jornalismo de mercado; busca-se menos a idéia do espetáculo, do sensacionalismo, do que a compreensão dos conteúdos, para oferecer ao público uma gama diversa e plural de informações que possam ser usadas para a prática da cidadania.




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