Aberta a temporada das promessas
A cada dois anos, durante as disputas políticas, os eleitores são bombardeados com novas propostas de governo. As conhecidas “promessas de campanha” muitas vezes se repetem e passam desapercebidas devido a sua constância nesses períodos. Outras, por suas essências um pouco que “diferenciadas e excêntricas”, superam até mesmo o tradicional esquecimento inerente ao povo brasileiro, e acabam se tornando motivo de piadas.
Renata Gondim
A cada dois anos, durante as disputas políticas, os eleitores são bombardeados com novas propostas de governo. As conhecidas “promessas de campanha” muitas vezes se repetem e passam desapercebidas devido a sua constância nesses períodos. Outras, por suas essências um pouco que “diferenciadas e excêntricas”, superam até mesmo o tradicional esquecimento inerente ao povo brasileiro, e acabam se tornando motivo de piadas. Mas a verdade é que, independentemente da sua natureza, as promessas podem ser decisivas durante a campanha. Não é à toa que algumas delas acabam sendo as responsáveis pela vitória de determinados candidatos. E o inverso também é real, já que as propostas não executadas por aqueles que assumiram o poder acabam virando mote dos ataques dos adversários em uma disputa futura.
Na ânsia de buscar os votos dos indecisos, muitos candidatos não pesam a aplicabilidade dessas propostas, principalmente quando o tal desejo vai ao encontro da vontade popular. Como já diz uma premissa propagada no próprio meio político para justificar com humor o por quê de tantas promessas não cumpridas, “papel e tinta agüentam tudo”. E, ao que parece, na disputa municipal para a Prefeitura do Recife, os candidatos Mendonça Filho (DEM), Carlos Eduardo Cadoca (PSC), João da Costa (PT) e Raul Henry (PMDB) não abrirão mão de investir nas juras. Mal a disputa começou, e hoje já é possível testemunhar uma guerra de projetos para combater os principais problemas da cidade: segurança e transporte.
Algumas das medidas ostentam nomes diferentes, mas têm parentesco próximo em suas essências. É o caso da Via Mangue, do atual prefeito João Paulo e de seu candidato à sucessão, João da Costa; da Linha Verde, defendida por Mendonça e Henry; e da Via Expressa Sul, de Cadoca. Para o setor de transportes, o prefeiturável petista foi o que mais inovou nas propostas, prometendo um teleférico para ligar as partes altas às baixas da cidade. Somada às idéias das promessas pessoais, os candidatos também não se esquivam de assumir o compromisso reivindicado pelo eleitorado, ainda que este seja administrativamente complicado.
Este é o caso dos discursos de redução das passagens de ônibus, da criação de números elevados de postos de trabalho e de melhorias consideráveis no sistema público de saúde, dentre outros. Mas quem irá se opor aos pedidos populares quando se está em jogo os ônus da perda de votos? A resposta, para alguns estudiosos, é simples: nestas circunstâncias, os políticos preferem ser iguais e incorrer no mesmo erro, ainda contando com a sorte de terem suas promessas esquecidas até as próximas eleições.
| Maioria das propostas fica apenas no discurso |
|
Basta forçar um pouco a memória para perceber que muitas promessas que nortearam as últimas campanhas políticas até hoje não foram cumpridas. Há oito anos, em 2000, o atual prefeito do Recife, João Paulo (PT), foi a surpresa da disputa, derrotando o então candidato à reeleição, Roberto Magalhães (DEM). O discurso trabalhado na época foi a construção de 40 mil casas populares, que acabaram não sendo efetivadas. Em contrapartida, o petista, mais tarde, assumiu o “cálculo elevado” da promessa, e apresentou como resultado a retirada de famílias carentes das palafitas de Brasília Teimosa e de outras regiões, beneficiando-as com moradias.
Em Olinda, algumas propostas já defendidas para o pleito de outubro são fortes candidatas para figurarem no hall das promessas difíceis de cumprir. O candidato do PDT, André Luis Farias, o Alf, assinou um termo de compromisso para disponibilizar o acesso gratuito à Internet em praças públicas, por meio de conexão de banda larga. Por sua vez, o prefeiturável do PTB, Arlindo Siqueira, promete a criação de um campus da Universidade de Pernambuco, com vestibular municipalizado.
Mas é em Jaboatão dos Guararapes onde os eleitores são bombardeados com as promessas mais inexeqüíveis. Conhecido pelo seu perfil folclórico, o prefeito e candidato à reeleição, Newton Carneiro (PRB), não impõe obstáculos às suas pretensões de feitos. Em campanhas passadas, já prometeu construir uma ponte sobre a Lagoa do Náutico utilizando os trilhos da extinta ferrovia da Tramways, e recentemente externou o seu desejo de construir um cemitério apenas para bandidos. O detalhe ficaria por conta do enterro: os mortos seriam enterrados verticalmente “para ocupar menos espaço”, segundo ressaltou o prefeito.
| Más idéias podem até atrapalhar o governo |
|
Diretor da Associação Brasileira dos Consultores Políticos, o sociólogo e marqueteiro Rodrigo Mendes, alerta aos políticos sobre os perigos das promessas feitas durante a disputa. Segundo ele, uma boa campanha deve passar a imagem de credibilidade, e uma promessa com características que extrapolam o inexeqüível pode se tornar “um tiro no pé”. “As promessas, durante a campanha, podem até encantar o eleitor. Mas depois, dependendo do grau de dificuldade em cumpri-las, o político pode comprometer o governo inteiro”, atesta ele.
Outra observação feita por Mendes é que, no contexto político atual, em que a falta de credibilidade na classe está em alta, a tendência é que os eleitores rejeitem quaisquer promessas que soem como irreais. “O melhor é até que se faça poucas promessas, porque o clima do País não está mais favorecendo essa estratégia (das promessas)”, diz. Todavia, o estudioso reconhece que, nas áreas consideradas mais carentes, o discurso eleitoral ainda exerce forte influência na hora do voto.
“Nas regiões em que os eleitores são mais carentes e que as necessidades são elementares e básicas, as promessas, mesmo que enganadoras, podem ludibriar muita gente na hora do voto. Mas uma promessa bem feita é aquela baseada em uma boa análise da realidade”, enfatiza o marqueteiro.
| Eleitores ainda se permitem seduzir |
|
Para o cientista político Hely Ferreira, a tendência de os candidatos optarem por promessas de campanha “grandiosas”, e em sua maioria não realizáveis, é explicável. “Eles sempre optam por obras grandes, que aparentemente dão votos. Cultura não dá voto, saneamento que fica embaixo da terra não dá voto... São promessas em cima de pesquisas qualitativas. É feito aquele princípio aristotélico: o ouvido do homem está inclinado a ouvir aquilo que lhe agrada. O que é lamentável, porque acaba contribuindo para iludir o eleitor”, enfatizou.
Ferreira ainda criticou o fato de parte dessas promessas não apresentarem, inclusive, os princípios constitucionais para a sua execução. “Muitas vezes os candidatos prometem coisas que ultrapassam as atribuições da administração municipal. É o caso de se dizer que determinada prefeitura vai criar uma secretaria de segurança, quando essa não é a função dela”, observou.
Ao mesmo tempo, o estudioso admitiu que estes fatores não são avaliados pelo eleitorado na hora do voto. “A princípio, a tendência do eleitor é ser seduzido pelo o que escuta. E, para mim, o voto não é uma escolha racional, é circunstancial, e por isso sempre vai pesar o que está sendo oferecido”, disse ele, complementando que esta postura irá variar de acordo com a formação educacional do indivíduo.
| E se a moda pegar?... |
|
Candidato a vice-prefeitura do município de Ampére, no sudoeste do Paraná, Leonir José Corá foi alvo, no domingo passado, de um sequestro-relâmpago que, segundo ele, teve motivações políticas. O curioso do caso foi que os dois sujeitos encapuzados, após agredir o político na cabeça e no corpo, decidiram também deixar uma marca em sua boca. Lembrando o sorriso do Coringa, arquiinimigo dos quadrinhos do Batman, eles cortaram os lábios do candidato. A justificativa dada pelos bandidos? Para que ele pudesse sair bonito nos santinhos de campanha, e parar de falar bobagens...
Salas com mais de 40 alunos poderão ter microfones