Políticas de drogas devem ser pragmáticas e não ideológicas, afirma presidente de ONG
Nem legalização nem repressão. Na opinião do presidente da organização não governamental (ONG) International Drug Policy Consortium (IDPC), Mike Trace, tais soluções...
Rio de Janeiro - Nem legalização nem repressão. Na opinião do presidente da organização não governamental (ONG)
International Drug Policy Consortium (IDPC), Mike Trace, tais
soluções para o enfrentamento do consumo de drogas são ideológicas
e ineficazes. Ele participou da primeira reunião da Comissão de
Drogas e Democracias, realizada hoje (21), na Fundação Oswaldo
Cruz, no Rio de Janeiro.
“A legalização e a repressão
são respostas extremas. Se, por um lado, as políticas puramente de
enfrentamento não surtiram efeito, a legalização das drogas
significaria dizer que as autoridades estão abdicando de suas
responsabilidades”, comentou Trace.
Há duas décadas
trabalhando na área de políticas para a redução do consumo de
drogas, Trace já assumiu cargos no Reino Unido, União Europeia e
Nações Unidas para a elaboração de estratégias de tratamento de
tóxico-dependência.
O especialista acredita que medidas racionais e eficazes devem focar
em pontos específicos, como, por exemplo, a criação de leis que
incentivem traficantes de drogas ao não uso da violência. “Por
exemplo, com redução de penas e benefícios”.
Ele
explicou que o governo inglês criou uma estratégia de sucesso para
diminuir a criminalidade, voltada para viciados em drogas. “A maior
parte dos crimes cometidos na Inglaterra está relacionada a viciados
que não têm dinheiro para comprar drogas, como heroína e crack, e
acabam se prostituindo, traficando drogas ou assaltando para
conseguir o dinheiro. Conseguimos flexibilizar a lei para esse tipo
de delito e criamos programas sociais e de saúde para tentar
recuperar essas pessoas. Com isso conseguimos reduzir
significativamente os números da violência”.
Um dos
tratamentos oferecidos nos programas é a prescrição de drogas
alternativas e gratuitas para os dependentes da heroína. “Há um
leque de serviços, mas o fundamental é que em vez de criminalizar
os usuários e mandá-los para a prisão, eles são tratados e
reintegrados às suas comunidades”.
Para Trace, a
despenalização dos usuários e o tipo de abordagem feita atualmente
na Inglaterra podem ser uma alternativa frutífera para o Brasil.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), em parceria com a Universidade de Brasília (Unb),
aponta que mais de 50% dos condenados por tráfico de drogas são
negros, pobres e réus primários. O levantamento, intitulado
Tráfico e Constituição, um estudo sobre a atuação da Justiça
Criminal do Rio de Janeiro e do Distrito Federal no crime de drogas,
foi divulgada no último dia 5..
A pesquisa indica também
que, embora o tráfico de drogas seja responsável pelo segundo maior
contingente de presos do sistema carcerário brasileiro, a grande
maioria dos encarcerados não integra quadrilha, mas é formada por
traficantes e usuários. No Brasil, a diferenciação entre usuário
e o traficante é estabelecida pelo juiz, não pela quantidade de
droga apreendida.